sábado, 18 de setembro de 2010

T(r)ópico #55 - As serpentes urbanas Angolanas!

Realmente, e para quem duvidava, as serpentes urbanas angolanas existem mesmo! São enormes, densas, arrastam-se vagarosamente e tendem a agrupar-se nos entroncamentos e cruzamentos!

Falo das serpentes de carros que, um atrás do outro, fila ao lado de fila, entopem todas as artérias da cidade, espalhando o seu veneno tóxico por todo o lado, deixando um rasto de névoa escura pelos céus de Luanda.

Tal como com as serpentes selvagens (as verdadeiras), aqui todas as pessoas as evitam, fogem delas, têm medo... de ficar horas as fio a esvaírem-se em desespero, a lamentarem as horas, os acidentes, a confusão, os que se metem pela esquerda, os que se metem pela direita, os que, impacientes, buzinam atrás quando nada se mexe à frente... todos as evitam... mas elas estão por todo o lado... e no fim... todos são por elas "picados"...

...Ficam ali... moles, com o sol de chapa, a elevar ainda mais a já alta temperatura (safam-se os que têm AC), a olhar para o anteontem, a pensar no amanhã, a suspirar... quando mal se consegue respirar... pois esta serpente é daquelas que apertam mesmo bem...

Por vezes são escassos centímetros, milímetros até, que separam a batida... e quando batem mesmo... bom então aí há "Maka!" Saem dos carros, gritam, gesticulam, esperneiam, e agridem se for preciso... para no fim, ir cada um para seu lado... pois seguros aqui... é como o oásis no deserto! É uma miragem!

Cada um assume a sua despesa, e se o carro já não andar, não há "Maka!". Amarra-se uma corda ao candongueiro, e este vai ali, ligado por uma corda-umbilical, a puxar o outro! E se levar os 4 piscas ligados, vais cheio de sorte, pois a grande maioria, nem um tem, quanto mais 4!!!

Mas estas serpentes... são as serpentes do centro da cidade! Fora dele... há um outro tipo de serpente, ou melhor... de serpentear!!!

Bem vindo a... Luanda Sul!!!

....

A sul de Luanda, fica uma área que designam de Luanda Sul. É no fundo uma área nova da cidade, ligada à cidade "antiga" por uma artéria nevrálgica que atravessa toda a Samba e vai dar ao município de Benfica (Norte), a uma zona nova chamada de Talatona.

Talatona é uma área nova, maioritariamente residencial, composta por grandes e "luxuosos" condomínios (entenda-se luxuoso como um luxo relativo, atendendo aos padrões africanos), pontuada por algumas zonas de torres de escritórios de arquitectura do vidro (muito conveniente - ironicamente falando - para um país tropical, com temperaturas elevadíssimas e uma exposição solar intensa), e ainda o único centro comercial existente até ao momento, o Belas Shopping.

Esta zona foi e está a ser construída maioritariamente por uma empresa brasileira, a Odebrecht, que a nível das infraestruturas, as constrói exclusivamente.

Então o que é que obtemos!? Um país Africano, Angola, descoberto e colonizado por um país Europeu - Portugal, que edificou e criou a maioria das infraestruturas do país, é agora infra-estruturado por uma companhia de um país Sul-Americano, o Brasil, também ele uma ex-colónia do tal país europeu, e urbanizado (operações urbanísticas de condomínios) por... Chineses!!!

Bom, já se está a imaginar a bela salganhada que isto dá!!!

Resumindo, em Angola, numa área nova da cidade antiga, de estrutura e linhas portuguesas, temos chineses a construir numa infraestrutura brasileira!!!

E é essa mesma infraestrutura que, em Luanda Sul, se ganha uma nova dimensão da expressão serpentear!

Embora as sinuosas estradas da cidade original, penhadas de carros, o possam realmente parecer, eu entendo como serpentear os zig-zagues inúteis e sem sentido que aqui somos obrigados a fazer! Levando o carro a serpentear entre estradas e retornos, fazendo kilómetros atrás de kilómetros para virar e voltar ao mesmo sítio quando, uma simples rotunda, permitiria seguir em frente...

Está certo que aqui as rotundas, ao contrário das europeias (e a cidade de Viseu, nisto tem um doutoramento - Case Study), em vez de circularem e escoar o trânsito, têm o efeito oposto... atrofiam e congestionam... e porquê!? pergunta o meu leitor mais curioso...

É muito simpes! Porque como as regras de trânsito aqui não existem, ou pelo menos não são aplicadas, então entra toda a gente ao mesmo tempo para a rotunda, ignorando a regra da prioridade, e congestionando-a!

É claro que depois novas regras de prioridade são criadas, como por exemplo: tem prioridade o carro mais robusto, ou o carro mais "podre" (pois este está pouco preocupado se leva mais uma batida); ou por exemplo da regra da prioridade do nariz! Passo a explicar.. o carro que primeiro conseguir meter o nariz, tem prioridade sobre o outro... Afinal... até no Caos, na confusão do trânsito, se encontram regras...!!!

Mas voltando aos retornos...

A infraestrutura rodoviária criada pela tal empresa brasileira, implementou em Luanda Sul, o sistema do seu país natal, no qual se ressaltam os tais retornos.

O retorno é uma forma de, nas vias rápidas, se inverter a marcha para o sentido oposto. É um sistema económico muito utilizado em países menos desenvolvidos, pois permite efectuar inversão de marcha em vias rápidas sem recorrer a viadutos, pontes ou túneis. O problema aqui, reside basicamente em 3 aspectos:

1. O primeiro e mais gravoso, é que eles se localizam sempre do lado esquerdo das vias rápidas, e é na faixa mais à esquerda que se circula mais rápido. Então, para entrar num retorno o condutor tem que colocar o seu carro na faixa mais rápida e reduzir a sua velocidade para entrar no retorno. Quando sai, acontece exactamente o inverso, sai com uma velocidade reduzida (os que não se espetam contra os rails dos retornos), e entra num curto espaço directamente na faixa de maior velocidade.

Bom... não é preciso puxar muito pela imaginação para se perceber o que muitas vezes acontece...
Aliás, quem tiver um gosto especial e fascínio pelos acidentes automóveis mais estapafúrdios basta que pegue numa cadeira, se sente (à sombra de preferência) à beira da estrada num local seguro, e em meia tarde vê certamente meia dúzia de acidentes, ou um cento de "quase acidentes" de arrepiar a espinha de um gato!

2. O segundo aspecto, prende-se com os condutores que depois, ao saírem dos retornos, se querem deslocar para a faixa deles, ou seja, para a faixa da direita. E isto acontece muito, principalmente com os camiões.

Para ser mais claro, vamos fazer um pequeno exercício (que não é mais do que a descrição de um episódio típico, centenas de vezes presenciado): Um camião pesado, cheio de areia para uma das milhares de obras que aqui existem, pretende sair do retorno e passar para a faixa mais à direita. Sai do retorno a cerca de 20 ou 30km/h e entra numa faixa onde carros circulam a mais de 140km/h. Ao sair da faixa de aceleração, deve já ter atingido os 40/60km/h, e resolve então fazer uma diagonal pelas 2/3 faixas de rodagem até se posicionar na faixa mais à direita, a cerca de 80km/h, deixando uma nuvem densa de pó, (metade causada pela areia que transporta, a outra metade pela areia que se acomula sempre na berma das estradas, juntamente com os restos dos pneus rebentados). Bom não é preciso fazer um filme para se imaginar o que acontece... No meio deste processo, há carros a passar a 140km/h pela esquerda e pela direita, buzinadelas por todo o lado e quando um dos carros que ultrapassa o camião pela direita, após atravessar a núvem de pó, se depara com um outro camião em marcha lenta... "Pum!!!"

É nessa altura altura que o curioso que gosta de assistir aos acidentes, e que estava já a adormecer debaixo da sombra que encontrou, se levanta e diz: "xiiiiiiii.... mais um!".

3. O terceiro aspecto, e mais frustrante de todos, é o tempo que se perde para fazer um trajecto aparentemente rápido e curto, e que se transforma num longo e penoso caminho sem sentido.

É o desespero de ver a continuidade da estrada mesmo à nossa frente, do outro lado da via, mas que para lá chegar e dar continuidade ao trajecto, tem que se percorrer mais não sei quantas centenas, por vezes vários milhares de metros, até chegar a um retorno, e fazer tudo de novo até ao mesmo ponto onde nos encontrávamos, só para passar para o outro lado da estrada...

Já para não falar nas estradas de um só sentido, que nos obrigam a ziguezaguear como uma serpente a imitar uma barata tonta, e que nos forçam a fazer o triplo ou o quadruplo dos quilómetros, só para "ir daqui ali"...

Apresento um exemplo de um trajecto que faço com alguma regularidade:

A verde, o trajecto que seria lógico efectuar.
A vermelho, o que sou obrigado a fazer....

imagem 1

imagem 2

Em diagrama, para uma melhor percepção.
Trajecto verde (o lógico): 0,150km
Trajecto vermelho (o real): 2,750kmTrajecto verde (o lógico): 1,100km
Trajecto vermelho (o real): 3,750km

E tudo isto poderia ser resolvido com uma simples rotunda... e claro, civismo ao volante! Duas coisas bem complicadas de encontrar!!!

E eu até percebo porque não existem rotundas nestas novas vias, não é só a questão de que quando fazem uma rotunda de dimensões normais, esta rapidamente fica congestionada, é também porque dá imenso jeito à empresa que agora constrói e implementa esta estrutura viária vir, daqui a 4 ou 5 anos, partir tudo de novo para meter rotundas onde antes as poderia ter colocado. Lógico, não? É claro que a lógica a que aqui me refiro é a do Dólar. "Porquê fazer agora bem e ganhar por isso, quando posso fazer mal agora para depois voltar para remendar e ganhar o dobro!?"

Há ainda a questão dos semáforos nas passadeiras. Em Portugal, e outros países da Europa, os semáforos são colocados antes de modo a que o condutor imobilize a sua viatura antes de chegar junto da passadeira. Aqui não!

Aqui, tal como no Brasil (e não admira que assim seja, uma vez que a empresa que está a infra-estruturar esta área é brasileira), os semáforos aparecem depois da passadeira. Já se está mesmo a ver o que acontece! Os condutores quando param os carros, (e os que param, pois há os que ignoram simplesmente), param já em cima da passadeira. E quando até conseguem parar antes, param já para lá da barra pintada no pavimento. O que já não é mau, pois já garante alguma segurança, mas... mas, isso dá direito a multa. E claro, quem é que se fica a rir com isto? O belo do Polícia que monta o seu estaminé à sombra junto a uma passadeira, e fica ali a esfregar as mãos de contente a ver quem é o primeiro branco que para o carro para lá do limite da barra para de imediato o mandar parar, desenrolar todo o rol teatral que se faz, para no fim ganhar a sua "gasosa", e desejar: "bom fim de semana, senhor condutor".

Fico com a ideia que este sistema de sinalização luminosa junto das passadeiras deve ter sido negociado com a Administração Central, a quando da decisão da suma implementação, como uma forma de "compensar" o árduo trabalho dos agentes de segurança rodoviária, já que eles aqui... "trabalham muito"!

Não se engane o meu leitor, pois estes termos todos pomposos que aqui escrevo como: "agentes de segurança rodoviária", e outros, não são propriamente a imagem que tem no seu país dessas instituições e agentes... aqui, bom aqui tudo é, digamos... "contornável".

O problema é que, por mais que resistamos, acabamos sempre por ser "picados por estas serpentes", e damos por nós, a ziguezaguear atordoados nas filas sem fim, anestesiados pelo longo arrastar das horas, de suspiro atrás de suspiro, envenenados por este serpentear rodoviário...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

T(r)ópico #52 - Fim de tarde na praia deserta

2010.08.14



A tarde era a de Sábado, e por ventura foi um sábado até que não se trabalhou de manhã. Mas nestes dias do Cacimbo, o dia nasce cinzento e cinzento termina. É o inverno dos trópicos.

Bom, não se pode dizer bem que seja inverno, pois as temperaturas rondam a mínima de 20/23º e máxima de 25/27º. Não tem Sol. Pois, está bem, mas a temperatura compensa!

Normalmente, e a partir de Agosto, o Sol lá vai aparecendo, timidamente por entre um manto de nuvens, primeiro espesso, e depois já fino, quase rendado, lá para o fim do dia. Nunca aparece é em todo o seu esplendor, pois por mais fino que seja esse manto, ele cria sempre uma certa camada, quase misteriosa, que ao surgir o Sol cria uma espécie de difusão solar, criando efeitos dignos de registo, principalmente na altura mais fantástica do dia... no pôr-do-sol!!!

África tem muitos fascínios, de facto, mas este é especial. Confesso, já viajei por muitos sítios do mundo, já vi muitos "pôr" e "nascer" do Sol, mas aqui... aqui é algo de inigualável! Consegue-se ficar minutos a fim, a olhar para o Sol, sem ferir a vista. Ele é enorme, em tons alaranjados, e capta a nossa atenção longamente... digo e repito, é algo digno de se ver, e que certamente irá ficar retido nas minhas memórias de África.


Chegámos à tarde, deveriam ser por volta das 15h00, o que aqui já é bastante tarde, considerando que o sol se põe (mesmo) por volta das 18h00.

O Por do Sol aqui, como já referi é lindo de ser ver, fascinante mesmo, mas tem outra característica que ainda não revelei, a transição entre o dia e a noite, é repentina!!!

Aqui quase não existe o "lusco-fusco"! Ao aproximar-se da linha do horizonte, o Sol, começa a ganhar proporções gigantescas, em tons alaranjados, e desce vertiginosamente em direcção à linha do horizonte. Uma vez desaparecido totalmente (estamos a falar em poucos segundos), ultrapassada que esteja a linha do horizonte, a noite surge num ápice. Apenas cerca de 15/20 minutos separam o pôr-do-sol da noite cerrada.

Durante imenso tempo indaguei-me o porquê deste fenómeno, mas há poucos dias, em conversa com um amigo meu, engenheiro, ele veio com uma teoria que me convenceu, e que realmente tem toda a lógica. (Verdade seja dita, nisto os engenheiros são muito bons pois têm sempre uma solução lógica, mas mais que isto, prática para as coisas).

A teoria dele, e com toda a lógica, é que em Portugal, o pôr-do-sol demora mais tempo porque Portugal se encontra num paralelo muito mais afastado da linha do Equador, e como tal, o sol efectua uma trajectória muito mais de rasante relativamente à linha do horizonte e por isso demora mais tempo a atingi-la, ultrapassa-la e desaparecer a luminosidade, ao passo que aqui, muito mais próximo da linha do Equador, ou seja, no Trópico, a trajectória é muito mais vertical, quaser perpendicular, e por isso o Sol, "cai" mais vertiginosamente, assim como a noite surge muito mais depressa. Lógico, não? Realmente nem sei como é que não me surgiu isso, sendo que este Blog trata das aventuras nos trópicos!

Bom, voltando à praia... esta foi escolhida exactamente pelo que vou passar a descrever... por ser uma praia... deserta!!!

Bom, não é que nesta altura do ano as praias não estejam quase todas desertas, pois aqui as pessoas, acham que está... bom, até me custa escrever... acham que está... frio!!!!

Eu não sei bem como, até porque eu passei a tarde toda dentro de água, desde que cheguei, até quase ir embora, já perto das 18h15m.

Mas o facto é que as pessoas no Cacimbo até fogem da praia, como o diabo foge da cruz, pelo suposto "frio" que elas sentem junto ao mar (e fora dele). Ainda o ano passado dei com um vestido com uma camisola de lã de gola alta, ao meio da tarde, e eu de t-shirt, e cheio de calor.

Bom, mas voltemos à praia... hmmmm... a praia.... sim, estava óptima! Poderia tentar descrever a sua beleza, e como era fantástico estar numa praia assim, mas acho que aqui vou recorrer a aquela máxima que diz que, "uma imagem vale mais que mil palavras", e se uma vale mais que mil, então o que dizer de duas!?

Então aqui vai... esta era a praia. Descemos a picada de carrinha (um novo modelo indiano que está a implementar-se aqui "Mahindra") e conduzir a carrinha até à língua de areia, saí da carrinha e fiz o resto a pé. E bom... esta era a imagem da praia, à minha esquerda....

e à minha direita.....


É caso para dizer... palavras para quê?

Foi um fim de tarde muito bem passado, mais um daqueles que vai constar no meu álbum de memórias, do continente mãe... e estas.. valem bem o espaço que ocupam!

É nestes "recantos", e nestes momentos, que me encontro com a imagem romântica, aventureira e fascinante deste continente... é aqui que se sente mais um dos fascínios de África!

T(r)ópico #51 - Meio de Transporte no Interior

É simples é barato e.... parece ser divertido!

Em andamento:


Na Paragem à espera do... Condutor:

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

T(r)ópico #50 - Beleza Sinistra no Cacimbo

13.09.2009



O período é o do Cacimbo, o período das secas. Uma altura do ano que aqui designam de "Inverno", com temperaturas a rondar os 23/25º constantes. À noite cai uma ligeira humidade (o tal cacimbo) e o céu está sempre coberto por um manto espesso de nuvens cinzentas que ameaçam chover, mas nunca chove...


No Outono europeu, as folhas caem das árvores, e também aqui, a diferença é que aqui caem no tal.. Inverno! Bom também como só têm 2 estações só podia ser mesmo nessa!

As árvores mais características daqui, os Imbondeiros, que no verão ficam fantásticos, com as folhas e os frutos verdes (ver T(r)ópico #28 e #30), no Cacimbo, deixam cair a folha, os frutos (a múcua) e ficam despidos...


A imagem é sinistramente bela!!!

Vista pelo retrovisor do jipe, parecem um bando de seres estranhos, amontoados em nossa perseguição...



Há os que, numa luta inglória contra os elementos naturais ainda tentam suster alguma dignidade, aguentar os seus frutos, prolongar a queda da sua "roupagem"... mas esses são os que, se não pelos ramos meio despidos, ou pela sua forma, apresentam o ar mais sombrio, qual árvore-antropomórfica de tronco encorpado, pescoço esguio, cabelos despenteados, e braços abertos de dedos prontos, para te agarrar...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

T(r)ópico #49 - A via sacra domingueira...


Domingo em Luanda.

Normalmente as gentes desta terra aproveitam o fim de semana para fazer todo o tipo de festas, ir dar uns mergulhos à praia, e muito importante... ir ao Shopping!!! Ao Belas Shopping!!!


Aqui o Shopping (Centro Comercial em Português de Portugal - para os mais ortodoxos) é, ao contrário do que acontece em Portugal, um local onde vão as pessoas abastadas da cidade.

Único no país, apesar de já estarem em marcha outros dois, segundo consta, concentra naturalmente a atenção dos que, não tendo muito mais que fazer num período onde a praia não lhes é tão apetecível, rumam ao centro de deambulação nacional!

Sim, porque é exactamente o grande exercício que se faz por estas bandas!

Não se chega ao famoso cliché do fato de treino, só porque aqui faz calor e as pessoas andam sempre equipadas com roupa de marca desportiva, por isso, não se pode catalogar essa idumentária de "Fato de Treino", mas as marcas Puma, Reebok, Adidas, Nike, etc, etc, feitas as contas no fim do dia, devem ser as mais vistas entre os transeuntes...

As lojas não estão cheias, mas a praça da alimentação, está a romper pelas costuras, filas atrás de filas para os escassos restaurantes de "pega no tabuleiro, paga uma fortuna pelo kilo e procura uma mesa e é se queres"!!! As mesas... lotadas... e os cafés do exterior à pinha!

O supermercado.. bom, é bom nem falar pois, nem o Metro de Lisboa em hora de ponta consegue competir com tamanha multidão...

O Cinema... é como o Shopping, o único no País!!! E aos domingos, concentra a maior das atenções, pois já não só são os graúdos que aproveitam a matine por ser mais barato, (no outro dia paguei por este horário o equivalente a 17€ para ir ver o "Altamente" em 3D quando em Portugal pagaria 5.50€, 7€ no máximo!), pois esse é o horário da pequenada!!! Que com o seu e volume tom de voz típico, transformam aquele corredor/gruta do cinema, num verdadeiro parque de diversões de elevada reverberação acústica!!!

Isto é algo que aqui sempre me fez, e ainda faz, confusão! Como é que depois de ouvir tantas histórias pelas pessoas mais velhas que aqui viveram (alguns retornados), sobre os antigos cinemas, que eram um encanto, lindos, que com a liberdade que aqui se vivia passavam filmes que nem em Portugal se sonhava, das míticas matines ao ar-livre, e da variedade de opções de cinemas, assim como formas de passar os fins de tarde e noites dos fins de semana de 70's, como é que hoje só existe um cinema e é dentro de um "Shopping" Brasileiro???? Há coisas que não consigo mesmo compreender, mesmo que façam sentido depois de explicadas...

Não que tenha nada contra o Shopping e a marca brasileira, muito pelo contrário, até dou graças a Deus por aqui estarem e até perto de casa (atendendo às alternativas), o que me perplexa... são os outros que desapareceram...

E nesta ronda pelo Shopping, restam então os corredores para o já badalado vai-e-vem, de lá para cá e cá para lá, parando aqui e além, e micando aqui e micando ali, e não falo só das lojas, pois com o calor que se sente por aqui as roupas normalmente andam mais curtas, mas admire-se o que julga que aqui todos têm calor, pois cruzei-me no outro dia, num destes corredores, ia eu de Polo e Calções, com alguém que (menina), no sentido inverso, trajava umas calças de fazenda e uma camisola de gola alta... de lã!!.

Mas o ritual do Shoppoing não fica completo sem o Estacionamento Automóvel!
Aqui o parque automóvel do Centro Comercial, é uma coisa digna de se ver!!! Confesso...!!!

Não que não se encontre imensamente à pinha num domingo (e nos outros dias também, mas neste mais), e onde se pode passar minutos valentes rodando as baias de estacionamento procurando um raro lugar onde: (como alguém me disse um dia) "Estacioniar el Pió-Pió" (no seu belo portuganhol já de elevado grau... de fermentação), mas digno de se ver porque os carros, jipes, e até motos que aqui estacionam... são viaturas... TOPO DE GAMA!!! Sim, eu disse, Topo de Gama mesmo!!! E aqui sim diferem em muito de um Centro Comercial em Portugal, pois lá, o mais certo é o parque estar cheio de Renault Clio's, Fiat Punto's Opel Corsa's Peugeot 106, etc etc... mas aqui....!!!! Naaaaaaa.. aqui são Jipes BMW Z6, são Land Rover e Range Rover de última geração, Lexus, etc etc... e, só para se ter a noção, dei por mim no outro dia a contemplar no parque de estacionamento um... BENTLEY!!! Sim, um Bentley à porta de um C.C.... é que... fico sem mais palavras...

Exposto isto, e por ausência (prolongada) de àgua e electricidade em casa, o sítio mais próximo onde se pode comer uma refeição decente, e confiável, é mesmo no Centro Comercial, e à falta de melhor, lá fui eu... segurar no andor, e fazer parte desta procissão domingueira, rumo ao Shopping...

sábado, 29 de agosto de 2009

T(r)ópico #48 - Diário de uma estrada angolana... (percurso casa-trabalho-casa) V - The Return!!!

Não seria um regresso aos Trópicos se o meu 2º T(r)ópico da 2ª temporada não se referisse aquilo que considero a "Divina Comédia sobre Rodas" ou.. será que devo adoptar o nome de "Perigo Eminente!!!"?

É realmente uma dúvida que me assiste, pois não sei se deva rir com as manobras perigosas, os sempre presentes e intermináveis acidentes e peripécias com que nos presenteiam, a nós visitantes desta terra, ou se deva agradecer aos céus por ainda não me ter acontecido nenhum acidente, atropelado alguém, ou ter tido algum azar/chatice... Na dúvida... tenho feito as duas coisas!

Apesar de já calejado por alguns meses de condução nestas estradas, não deixo de me continuar a surpreender e admirar com as peripécias, as manobras incrivelmente "out of rule", a... anarquia das estradas!!!

E ai de quem aqui ouse protestar, mandar vir, buzinar ou praguejar!!! O melhor é esquecer, é deixa-los passar, é deixa-los infringir... seguir em frente, e acima de tudo estar super atento!!! O melhor truque é estar sempre de pé a trás, ou melhor, pé no travão (encostado), e tentar prever ,atempadamente, o que cada um dos veículos que seguem num raio de 50m (num e noutro sentido) pretendem fazer, ser um leitor de mentes de condutores angolanos!!!

Nunca a expressão: "Com um olho no burro e outro no cigano", fez tanto sentido para mim!!!

Como contar todas as peripécias que já assisti se tornava uma tarefa quase impossível e super fastidiosa, vou só partilhar estas que poderia catalogar de... "Os Camionistas!!!"


Ora, nem mais, vamos falar de camiões!!! E claro os seus... (ehhh.. bolas, não me vem um adjectivo melhor para os caracterizar... se não "broncos") condutores! (isto claro, se quiser ser politicamente correcto).

Bom, falemos então de um camião, ou melhor de um camionista que conduzia um camião, daqueles bem grandinhos, e que tem que virar num retorno! (mais à frente elaborarei um T(r)ópico dedicado a este tema, dos retornos)

Então este nosso amigo, que conduz um camião longo, e transportava 2 contentores de 20T. Tem de virar para o lado de Talatona e, portanto, virar no retorno... e não é que este nosso amigo não fez a coisa por menos e resolveu fazer jus à palavra e, literalmente... virou o camião!!!

E perguntas tu... mas como é que ele vira um camião carregado com 2 contentores de 20 Toneladas cada, com os contentores carregadinhos?

Pois é, meu amigo, mas a resposta é simples!!! Estás em Angola e aqui tudo pode acontecer!!!

Mas vamos lá à explicação lógica...

Então o nosso amigo, sabendo que conduz um camião longo, ficou de repente muito preguiçoso, e fazer a curva por fora, de forma a arranjar espaço para manobrar, dava muito trabalho, ou deve ter parecido, na altura, uma tarefa homérica, e ele resolveu seguir pelo retorno como se de um ligeiro se tratasse, a fazer a curva por dentro!

Bom, se não é novidade para mim que os passeios/lancis aqui são "à brasileira", feitos em betão armado, e com uma altura sempre superior a 50cm, então para ele, que muitas vezes ficam parados sentados na berma à espera de uma "Bóleia", já deve ser o bê-à-bá, ou devia ser...

O camião, fazendo a curva por dentro, fica naturalmente, mais cedo ou mais tarde, com uma roda encostada ao passeio. E o que é que o nosso amigo faz... Lá deve ter pensado: "Bom, isto é um camião.. tem rodas grandes... deve ser capaz de subir", ignorando claro, o facto de conduzir um camião pesado, com 2 contentores cheios, e isto é, caso tenha pensado alguma coisa, o que eu até duvido...

A roda teimava em subir o passeio, mas parar o camião e manobra-lo por fora dava muito trabalho, então só havia uma solução.. continuar a insistir...

O resultado daí, qualquer um adivinha, o camião lá conseguiu subir os cerca de 50/60cm de lancil, e claro, com a inclinação que daí advém, o peso dos contentores fez o inevitável... inclinou o camião, e daí a este resolver bater uma sesta deitadinho no asfalto, foi um instantinho! (que isto de subir passeios carregado dá muito trabalho!!!)


Incrivelmente, o atrelado e os contentores tombaram, mas o camião não! Era um daqueles que só tem a cabine e o espaço atrás para atrelar.

(foto tirada de manhã, por volta das 7h45m)

Bom, o caos que aquele estranho Incidente causou já todos imaginam...

E claro, lá foi o pobre do dono do material , ter que gastar uma fortuna em alugar um camião-grua aos chineses (que custam uma verdadeira fortuna por hora), para levantar os contentores, recuperar a carga e aliviar o trânsito...

(foto tirada meio dia depois, à hora de almoço)

Não quero imaginar o que é que passava pela cabeça pelo dono da carga, naquela hora, mas aposto que o tipo (o angolano que o conduzia) estava menos preocupado do que eu...


Outra história de um camionista aconteceu um ou dois dias depois do acima relatado. Um Camião carregado com grades de cerveja Cristal, uma vez mais, quis ver se o nome era só da cerveja, ou se o nome vinha das garrafas, e estas eram de... cristal...???

Então o que é que este nosso amigo resolve fazer?

Logo na primeira curva apertada (em cotovelo) que existe no fim de uma longa via rápida, resolveu achar que era o Fittipaldi, ou quem sabe, inspirado pelo sei recente acidente, o grande Filipe Massa.

Se resolveu achar que era um deles, ou realmente não sabe que tem que abrandar numa curva daquelas é algo que eu nunca vou saber. Agora aquilo que eu sei é que... um camião carregado com resmas de grades de cerveja, portanto um líquido (que se movimenta muito bem quando há inclinações), em cima de frágeis estruturas empilhadas, as grades umas sobre as outras, tombam muito facilmente numa curva daquelas a grande velocidade...!!! Mas vá, eu até lhe dou o desconto, não sou engenheiro mas tenho um curso que lida com engenharias, por isso, talvez, mas só talvez, seja natural que eu sabia isso, e ele... não!


Dois dias depois, exactamente na mesma curva um outro camião virou, (não me perguntem como, mas é fácil de adivinhar) e, uma vez mais, com 2 contentores de 20T, que ficaram espalhados pela estrada e passeios, tendo inclusivamente destruído um passeio (novinho em folha) que não deve ter mais do que 2/3 meses, e aqui... os passeios são feitos em... Betão Armado !!! (atenção que não estou a falar de cimento, mas betão armado!!!)

Os contentores também não ficaram muito bem tratados, como é fácil de imaginar...


Depois podia falar de mais aquele camionista que bateu contra um jipe (coisa corriqueira por estas bandas) e entupiu, com o acidente, a já congestionada estrada que dá acesso a Benfica e que atravessa o rio, sim atravessa... sem ponte!!!

Mas isso implicava falar dos passeios e cruzamentos que se galgam da estrada com 2 faixas, que de repente, se transforma em 4 (sem contar com as que se começam a formar nos passeios laterais ou no meio do mato paralelo à estrada), ou de conduzir em sentido contrário, e isso daria muita tinta para escrever e este T(r)ópico já vai longo...


E exposto isto, continuo com a minha dúvida inicial... "Divina Comédia sobre Rodas" ou.. "Perigo Eminente!!!"???



sexta-feira, 21 de agosto de 2009

T(r)ópico #47 - Back @ The Tropics - Part II


Depois de uma longa e atribulada visita ao país natal, para tratar da renovação das burocracias, e relembrar de novo ao desgastado corpo e vista, de como é a civilização, eis que estou de novo de volta aos paralelos tropicais!!!

Dia 14 marcou o regresso, e este T(r)ópico vem hoje, dia 21, "celebrar" não só a minha primeira semana de volta aos Trópicos, assim como a data de hoje, pois faz exactamente hoje 1 ANO, que vim pela primeira vez a este Trópico!!! Faz hoje um ano que teve início aquele que seria o primeiro (e curto) período dos meus périplos pela terra dos Imbondeiros!!!

E que melhor forma de celebrar este meu regresso e este aniversário que... a falta de energia!!! E claro.. a consequente falta de água!!!

Ah pois... estava eu ontem todo catita, a deliciar-me com o belo jogo que o meu clube do coração estava a fazer, quando após o 1º de 4 golos com que cilindrou aquela aspirante equipa ucraniana, e quando nada o fazia prever, a energia simplesmente... foi-se!!!

O primeiro pensamento, confesso, foi muito inocente... "Caraças, logo agora... bom.. faltam 10m para o intervalo, vou ficar por aqui (às escuras), pode ser que a energia volte a tempo da segunda parte..." ... que inocente!!! Até parece que nem aqui estou à um ano!!! (bom na verdade, totalizando o tempo todo de permanência são só quase 4 meses, o que pode justificar de alguma forma a inocência do meu pensamento..)

A electricidade não só não veio para a segunda parte do jogo como, aliás, não veio durante a noite toda... e muito menos de manhã!!! E o meu leitor mais atento já sabe o que é que isto implica... Ora nem mais... se não há electricidade, também não há água, e não havendo água.. também não há banho!!! (ou pelo menos um que tenha nome disso, pois aquele processo de tomar banho a copo do reservatório, não pode lá muito bem ser chamado de banho...)

E apesar de aqui estarmos no Cacimbo (a estação com a temperatura mais amena, onde o sol está sempre encoberto por uma camada bem espessa de nuvens cinzentas e onde até certas noites até quase orvalha - cai o que eles designam de cacimbo), apesar de estarmos então nessa estação... se não há electricidade logicamente o AC não funciona, então... por mais amena que esteja a temperatura, a noite é sempre uma noite sofrida, pois o calor... ataca!!! (pelo menos para quem não é de cá, pois os locais dizem até ter.. frio!!!??, é comum ver pessoas com temperaturas a rondar os 25º, vestidas de casacos grossos apertados até ao pescoço, ou camisolas e pullovers!!!)

E se o calor ataca.. o que saberia mesmo bem seria, sem dúvida, acordar e tomar um belo de um banho refrescante... pois.. nada disso!!!

O meu presente de aniversário desta mãe África foi: "Ora toma lá uma manhã sem água, que é para não te habituares muito às mordomias!!!"

E com isto só apetece dizer... "I'm back to Africa!!!"

quarta-feira, 24 de junho de 2009

T(r)ópico #17 - Barra do Kwanza.. o Paraíso na Terra!!!!

22.02.2009


Tinha chegado a Luanda na sexta-feira, dia 20, e dois dias depois, já estava provar o sabor desta terra.. a sentir a natureza, a sua beleza natural, o seu gosto... a sua tranquilidade...

No dia anterior, paramos na berma da estrada para escolher o equipamento.. uns angolanos, a caminho de onde passaríamos no dia seguinte, vendiam junto à estrada, todo o equipamento de praia, meio sujo, empoeirado e, digo eu, usado. Mas aqui, é como se fosse tudo novo. Compramos uns toldos, umas mesas de plástico, cadeiras, cadeiras baloiço, espreguiçadeiras, e até uma mesa tipo de campismo "Camping Gas" para os miúdos se sentarem, e já agora, e porque não.. umas canas de pesca e uma bicicleta.

"Junta tudo isso aí, que amanhã o motorista passa por aqui e leva, o resto que vocês ainda têm de ir buscar. E não se esqueçam!!! Hã!? Toma lá mais 100 USD, para teres a certeza que não te vais esquecer, ya!?" disse, quem comanda, enquanto eu, ajudando como podia aqui e ali na escolha dos equipamentos, tentando que ele formasse o conjunto mais harmónico possível e mais cromaticamente equilibrado, e observava, impávido, o desenrolar das notas de 100 USD que ele trazia no bolso, e que uma atrás da outra, foram passando para as mãos dos "vendedores". Não contabilizei, mas na certa, aquela compra de "em cima do joelho", tinha rendido uma safra, assim por alto de mais de 1800 USD, (+-1325€), algo que em Portugal, facilmente se compraria por uns 600€ em qualquer supermercado, e ainda com os plásticos a garantir que seriamos nós a estrear o equipamento! Já para não falar, do leque de modelos e cores disponíveis! Aqui... compra-se o que se tem,quando tem, e custa os olhos da cara...

No domingo dia 22, arrancamos então daqui, passavam já das 10 e meia. A viagem, rumo ao sul é tranquila com a praia e a enorme ilha do Mussulo a acompanhar-nos todo o trajecto de 1 hora e pouco de viagem, sempre pela direita, até à Barra... onde o rio Kwanza se encontra com o mar.


O terreno onde vamos acabou de ser adquirido, e vamos reconhece-lo...
É uma faixa de terreno virgem, com uns 150m de largura e 300 de comprimento que, numa área plana e polvilhada por lindos conjuntos de palmeiras, se estende desde o interior e termina justamente em frente à foz, onde o rio se cruza com o mar, o oceano!


Junto ao areal da praia, uma vegetação rasteira prova ainda a virgindade do local, e do lado de lá do areal e da língua de rio há ainda um areal onde pescadores, levam o seu Land Rover original e pescam peixes variados e gigantes!


Chegamos passava pouco do meio dia. O sol é quente e, com o céu despido de nuvens, queima na pele. A sombra das palmeiras é providencial!

Os peões, já tinham montado o equipamento, que resolvi relocalizar para melhor dele tirar partido. O motorista, que tinha vindo mais cedo, tinha também passado pelo supermercado e comprado o nosso almoço.


Digo almoço, no fundo, para ser modesto. Em 4 ou 5 grandes arcas de conservação, tipo "Camping Gas", havia bebidas (cerveja sumos guaraná, águas e outras mais a perder a conta, mergulhadas em quilos de gelo. Estas ocupavam 2 arcas. As restantes tinham a (muita e variada) carne, e o peixe que era local, tinha acabado de ser comprado a um pescador lodo pela manhã.

Enquanto damos uma volta pela frente do terreno e vou molhar os pés na água tépida, as mulheres com as raparigas contratadas para o efeito, preparavam as brasas, a carne, o peixe, cortavam o pão e faziam as saladas, sem nunca se esquecerem de preparar muito bem o jindungo!


Junto à àgua, as crianças brincavam como podiam, e iam comprovando a suspeita de que a água estaria deliciosa. Sento-me na areia junto à água e fico a observar a tranquilidade... as àguas calmas, os peixes que, em pequenos saltos vinha-me dizer que ali também havida vida, e que pelo menos, naquelas águas próximas do derradeiro encontro com o oceano, estariam mais a seguro dos jacarés que, um pouco mais acima, nos juncos sobreiros nas margens preparam as suas mortais emboscadas. Do outro lado, a linha de areia vem acentuar a linha do horizonte...


Os tenis saltaram fora e tomaram lugar as havaianas, os calções pelos calções de banho, a areia escaldante e a água quente solicitavam um contacto mais próximo.



O alarme sou! Um peão veio trazer a mensagem... o almoço estava pronto! O cheiro a carne grelhada, e a peixe na brasa à medida que nos íamos aproximando da sombra das palmeiras aguçavam o apetite e na pequena elevação de areia, apoiada pelo equipamento recentemente adquirido, e um som de bossanova que vinha do Patrol, criava-se o ambiente perfeito para uma tarde de degustação e tranquilidade que ainda só agora começava...

O almoço começou com uma, duas, três,tantas estórias, uma após a outra, regadas pela cerveja que pontualmente se pescava da arca, onde mergulhadas no gelo já meio derretido, vinham acompanhar e alegrar um pouco mais aquela tarde de troca de experiências, de rumos, de objectivos, de sonhos e de ilusões, sempre acompanhados por um peixe grelhado que não parava de chegar à mesa, e que quando, guiado pelo metal do garfo, me chegava à boca, à lingua, parecia desfazer-se... o sabor era potenciado não só pelas brasas, que com calor iam tostando cada face daquele delicioso peixe, mas acima de tudo por todo aquele enquadramento natural fantástico, em que as horas pareciam arrastar-se vagarosamente, ao sabor da corrente do Kwanza que logo ali ao lado, tranquilamente se ia encontrar com o seu destino... com o Oceano... o oceano que liga os mesmos países que uma mesma lingua ainda une, um trio que outrora fora um Só, e que agora se prometem reencontrar em Angola, Brasil e Portugal, para um mesmo fim, no mesmo país...

Mas agora, são mesmo só 2 portugueses que, deliciosamente degustam todo aquele cenário natural, na companhia de uma simpática e acolhedora família angolana, os trabalhadores e motorista, as crianças, o som do rio, o som do mar, a leve brisa nas palmas, o sol por entre os dedos do pintor... aposto que, se Renoir, Monet ou Degas se tivessem podido encontrar com Gauguin, naquela tarde, naquele mesmo sítio naquele domingo, teríamos ficado representados ali.. entre a natureza e a tela, numa impressão impressionista de pós-impressionismo colorido, pelo verde e azul da água, os verdes amarelados das palmeiras, o amarelo da areia, o laranja do por do sol, o abraço do tom pálido dos portugueses, com o negro dos angolanos, o peixe tostado... a carne vermelha... o sal ainda no corpo, tudo isso e a cor do momento que espelhava a felicidade.. esse doce momento que volta e meia, a vida nos presenteia, e só um artista, um impressionista conseguiria tão bem captar para a posteridade, na táctil forma de captar com movimentos rápidos, em precisas pinceladas o brilho, o efeito das luzes... e onde as cores de áfrica se perpetuariam, intensas, como nas tardes vivas gravadas nos quadros de Paul Gauguin...

A tarde parecia não passar, e porque já sabia bem apanhar um ar fresco, então chamou-se o outro empregado que tinha ficado de contratar um barco... "Cumé..., já chamaste o barco?"

A refeição pediu a calma, e o tempo deu-lha... agora eram as águas que nos chamavam em suaves sussuros, tocando ao de leve com pequenas ondas tímidas, a areia quente da praia... deslocamo-nos até lá! O barco estava a chegar...

Ao chegarmos à linha de água, torneando por entre os juncos secos estendidos no areal, avistamos o barco que, de motor já desligado (parecia não querer interromper aquele momento de paz interior com o seu ruído característico), se aproximava embalado pela leve ondulação ,na berma. O barco não era grande, mas coubemos todos e, mais pequeno fosse, mais empolgante seria a viagem.


Arrancamos em direcção ao Sul, para logo entrarmos rio a dentro a Este. A paisagem inspira...


O rio é grande, largo, com vegetação de um lado e do outro, verde, viva, a tocar a água, a embrulhar-se nela, e a ocultar vidas... outras vidas, de outra natureza, umas mais pequenas e esguias como os os peixes e libélulas, outras maiores, que no silêncio da emboscada, procuram as suas presas para devorarem com as suas poderosas mandíbulas.













O passeio deve ter durado uns deliciosos 30 a 40 minutos... entramos pelo Kwanza a dentro, passamos a ponte, avistamos um afluente, viramos nos juncos, saboreamos a brisa, provámos a água, brincámos com o combustível que tinha acabado, contamos anedotas, bebemos a paisagem e voltámos à margem...

A tarde foi-se passando por entre os risos das crianças, a sombra dos chapéus (agora colocados à beira da água), e o suave esticão da corda de nylon que denuncia a mordida de um peixe no anzol, este mais esperto que nós pois levou o isco e deixou o anzol bailar ao sabor da corrente! Isto, claro, na única cana que montei, pois as restantes saíram da embalagem, mas quando dei conta já a linha se tinha envolvido em torno do carreto e os miúdos reclamavam que aquilo não estava a funcionar...

A tarde foi passando e com ela um degradê celeste, de tons azuis para os tons laranja...

Ao fim da tarde, a mesa, montou-se agora distante da sombra, pois a temperatura já permitia desfrutar aquela deliciosa paisagem, pintada agora em tons quentes, e o grelhador voltou de novo a funcionar, compondo aquele quadro com um cheiro a grelhados... desta vez, de carne!

A refeição fez-se uma vez mais, vagarosamente, por entre novas estórias e anedotas, imaginou-se o futuro do local, projectaram-se novos e vindouros momentos como este, e regou-se tudo com bebidas frescas, pois apesar de o dia estar a caminhar para a Hora de Ouro, o calor ainda se fazia sentir... e a brisa.. essa, tinha ido dar um mergulho, e deixou-nos a desfrutar a companhia do sol, que agora, descendo em direcção a outras latitudes, pintava o céu de tons deliciosamente quentes, e presenteava-nos com um espectáculo como que se nos convidasse para voltarmos... e voltarmos logo...


No meio da natureza, quando o sol se põe, resta ainda uma claridade ténue, que se vai desvanecendo com o passar dos minutos...

Novos sons surgem para substituir os diurnos, e a brisa volta de novo, para nos lembrar que está na hora de voltarmos... ...voltarmos à realidade e ao caos da capital Angolana!


O meu grande desafio para este local, vai ser, respondendo aos requisitos programáticos e exigentes do cliente, conseguir implantar uma pequena área privada em convivência com um, também pequeno resort, sem ferir a beleza e tranquilidade deste pequeno pedaço de paraíso, à beira rio/mar perdido...

(Foto aérea da Barra do Kwanza, tirada no jacto particular quando a sobrevoamos, de regresso do Lubango - 08.03.2009)

À vinda, o inevitável transito que, à medida que nos aproximamos de Luanda se vai adensando ao ponto de parar. Pessoas saem dos carros, encetam danças (kizomba, kuduro) cantam, e um par de miúdos brincam a queimar o tempo. O regresso demora mais cerca de 2 horas do que a ida... mas isso não é motivo para desânimo... não, pelo contrário.. num outro país, seria um desespero.. aqui... é somente mais um motivo para nos divertirmos, para o convívio, para explorar o nosso bom humor, e rirmo-nos com a forma perigosa e confusa da condução que por aqui se faz, ou do estado de um ou outro carro que passa por nós ou nós passamos por ele... como do Toyota Rav4 que ultrapassamos umas 2 ou 3 vezes, e que, incrivelmente se deslocava somente com 3 rodas, sendo a quarta só a jante com um pedaço de pneu ainda agarrado, e que viajava como se não fosse nada com ele... o importante era continuar a andar e chegar ao destino, desviando-se dos postes de electricidade quase tombados na via, e quando esta já não andasse, não havia problema.. ele descia para a vala, e contornava pela direita os carros que não eram tão espertos quanto ele, e ficavam ali, certinhos, na estrada de asfalto esburacado, quando se descessem um pouco, ultrapassavam mais uns quantos! Tudo isto, todo este quadro vem encher de cor o meu segundo dia, que já vinha cheio com a memória do pôr do sol dourado, naquele pedaço de paraíso à beira mar...

sexta-feira, 22 de maio de 2009

T(r)ópico #46 - O fiscal das obras... ou a versão Luso-Angolana do Lucky Luke!!!


Engraçado.. quando estava a ver esta foto tirada ao sr. Arquitecto durante a fiscalização no fim da tarde, fez-me lembrar algo do meu imaginário infantil... ... ou será só a mim!!!???

T(r)ópico #45 - In Angola, working with Chinese...

Arquitecto e Encarregado


Não, não falo Chinês... mas como Português, em Angola, vejo-me Grego para, em Inglês, falar com eles...

terça-feira, 19 de maio de 2009

T(r)ópico #44 - Musica Angolana - My Favorite Angolan Song

Pro incível que pareça, muito eu poderia falar sobre a musica angolana... mas não me vou estender sobre esse assunto (pelo menos agora...) Vou só deixar aqui ficar, uma musica (uma das primeiras que ouvi quando cá cheguei, e uma das que, por várias razões mais gostei) e um comentário a ela e às letras das musicas angolanas que, ao seu jeito falam de coisas ,bem do dia a dia, de uma forma bem conseguida e muito engraçada...

A musica é esta:

Musica: "Patrão" - Ary Feat. Yuri da Cunha

Ver Video da Actuação ao Vivo

(Obrigado Olavinho- sejas lá quem for!)

(clicar nos links para ouvir/ver musica)


E o comentário é somente este:

Ouçam com atenção a letra da musica (no 1º Link) e não se percam com a dança da Ary (no 2º Link)... o vídeo não é meu, é de um tal Olavinho, mas eu já tive a felicidade de ver a Ary a tocar ao vivo (sem o Yuri da Cunha) na Discoteca "Kopos" no Lubango - Província da Huíla, quando lá fui... e digo-vos... vale a pena!!! eheheh

Ps - Não reparem na parte em que a Ary quase cai do palco... :P

segunda-feira, 11 de maio de 2009

T(r)ópico #43 - O drama da energia...

Domingo, 24.05.2009

Era quinta-feira à noite, chego a casa já bem depois das 22h (o que corresponde aqui, mais ou menos - em termos de sensação de período nocturno - às 0h em PT). O dia foi duro. Pouco tempo no escritório e muito tempo na obra, a resolver situações... sentei-me ao computador já passavam das 19h. Cheguei a casa, comi qualquer coisa e nada me saberia melhor que chegar e poder tomar um duche bem relaxante, para purgar o corpo, e a alma...

Aqui as jornadas são longas e duras. O dia começa bem cedo... 5h, 6h ou 7h da manhã, depende do que houver para fazer... e as minhas, têm terminado já depois das 22h. Não porque já não haja trabalho para se ir fazendo, mas porque às 22h desliga-se o gerador do empreendimento e sem ele.. não há energia...

Então vou para casa, janto qualquer coisa, dedilho um pouco a guitarra, passo os olhos pela TV, a ver se aprendo a resmungar com qualidade como o dr. House, toma-se um banho, lê-se um pouco e já perto da 1h, vou descansar que a jornada seguinte promete...

É do senso comum que, depois de um dia de trabalho o que sabe mesmo bem é um belo banho seguido de um bom descanso. E aqui, para um bom descanso, implica ter o ar condicionado ligado um pouco abaixo do máximo, e uns belos tampões nos ouvidos para não ouvir o constante trabalhar do equipamento. E para acabar em beleza, um acordar tranquilo, seguido de um banho matinal para despertar e preparar o corpo para o novo dia que se aproxima.

Bom, como o dia tinha sido duro, então depois de um rápido repasto, meti-me no duche, e tomei um belo e longo banho! Passado um pouco, resolvi deitar-me pois tinha a certeza que o dia seguinte iria ser difícil... e não me enganei muito!

Passado pouco tempo depois de me ter deitado e adormecido, senti o desligar do A/C, sinal que a energia tinha faltado... como o sono era muito, virei-me para o lado com o seguinte pensamento: "Bem, se faltou agora, pode nem ser tão mau quanto isso, de manhã pode já estar a funcionar"... ohhh como era bom se assim tivesse sido...

De manhã ao acordar, o que na verdade foi mais um re-acordar, pois sem o A/C a casa fica quente, e com esse calor fica dificil dormir-se tranquilamente, acorda-se muitas vezes com o calor, a casa fica húmida, assim como o corpo, que fica suado, e o cheiro a humidade instala-se... na casa, nas roupas dos guardafatos, nos cortinados, no ar... ...apercebo-me que estou sem energia, e sem energia não há água! (coisa recorrente por estes lados). Ok, pensei... isto não tarda volta... mas não voltou... e não podendo distender mais o despertar matinal, fui ao banho a copo, com água do reservatório...

Como tive um dia agitado, optei por almoçar no Belas, o shopping aqui ao lado do empreendimento. - muito conveniente... uma vez que é o único do país!
(nota: digo shopping pois o centro comercial é brasileiro e como tal, tudo ali tem o nome the "shópingui")

Voltei ao trabalho pouco depois do almoço, e fiquei até quase às 22h, altura em que os chineses desligam o gerador, e fico às escuras numa zona pouco habitada, e por isso, perigosa...

Rumo a casa... caneta USB no rádio, radio bem alto, mãos no volante, voz a acompanhar a melodia e a mente a pensar no belo banho que vou tomar quando chegar a casa...
... ou melhor.. que tomaria se, quando chegasse a casa... houvesse energia!!!

Diz um vizinho que, já está assim desde manhã...

Bom, como o fogão é electrico (muito conveniente onde num país passa a vida a faltar a energia), e nada de luz em casa, e por sorte não tinha ficado na obra mesmo até ás 22h, podia ainda voltar para trás e apanhar o Shopping aberto (que fecha ás 22h), e com sorte comer alguma coisa! E assim fizemos... e jantámos! Mas.. logo a seguir o C.C. começa a fechar, e... o que é que se pode fazer, num sítio sem energia (em casa)...? Dormir??? Bom não parecia nada mal, atendendo ao esforço que se tem vindo a fazer esta semana... mas...como a casa sem energia fica bem quente... quem é que consegue dormir com esse calor?? Só mesmo um corpo desgastado e exausto é que pode cair na cama e dormir descansado... Sair para a noite ficava fora de questão, pois a ilha fica longe e, lembro, não tinhmos tomado o nosso banho after work! A opção foi... já que tavamos no C.C.,.... o cinema!

Novo problema se levanta... Todos querem ver um filme diferente! Eu quero ver o "Anjos e Demónios" (note-se que aqui a escolha não é muita e variada), outro quer ver uma daquelas pândegas americanas comerciais "Uma noite no Museu 2", e o outro... queria ir para casa! Bom fomos a votos... e ganhou... o raio da pândega! Não conformado, tentei ainda a minha sorte ao insistir que se fizesse pela melhor de 3... e não é que o filme calhou nas 3 vezes que se tirou à sorte!!!?? Bolas... tava mesmo frito! Como dizem os meus amigos brasileiros "não têm jeito meismo não"! Tive que ver o raio do filme! Pensa o meu caro leitor a esta altura.. "Hey! Mas tu tens sempre a hipótese de não ver esse e ir ver o outro!" Pois, meu caro, tenho sim nas o outro além de demorar mais, começa 45m mais tarde que o dito cujo, e nós.. viemos num só carro! Porra... e eu que nem sequer vi o "Uma noite no Museu 1", tinha agora que gramar o 2!!!

Bom pelo menos o cinema era confortável...fora o cheiro impossível a pipocas doces que impestava o cinema! E...não fossem 2 casais que entraram já no inicio do filme, teriamos a sala só para nós, 3 gatos pingados às 23h30 enfiados num cinema para ver um filme da treta por não haver energia em casa...

Quase que adormeci a ver o filme, tal era a diversão que a "comédia" me proporcionava! E bem arrependido fiquei eu de não o ter feito, já que as cadeiras nem eram más de todo, e quando chegamos a casa... a energia ainda não tinha voltado...

Avizinhava-se mais uma noite "tranquila"... sim, sem o ruido do A/C mas com o calor a entrar dentro de casa sem pedir autorização, e os mosquitos a esfregarem as patitas de contentes por terem a vida facilitada esta noite!!!

Bom, tamos sem energia agora, mas tudo bem.. amanhã, acordamos já com energia e tomamos um belo de um banho e tudo se resolve e esquece... bom... já ouviram falar no termo "History Repeating"!!!?? Pois... a amanhã do dia seguinte foi idêntica à do dia anterior... com a diferença que... a água nos reservatórios, para o banho a copo, já não chegava para todos..., mal deu para lavar a cara!

Enfrentamos mais um dia, com a coragem de quem vai para uma guerra que já sabe ir perder, pois, era sábado de manhã ,e se até à tarde não houvesse energia, poderia muito bem, já não haver energia para o resto do fim de semana... e com isso, e muito grave e importante... não haver banho também! Escusado será falar que o ambiente de uma obra, não é, digamos, tão tranquilo e dust-clean como um escrítório, e apesar do escritório funcionar na casa modelo, e esta estar mais protegida das poeiras e afins, uma pessoa tem sempre que ir à obra... lindo cenário se apresentava o meu dia!!!

Falta ainda mencionar, que nestes ultimos dias andava um pouco mais debilitado pois tinha sido atacado impiedosamente por um batalhão de mosquitos e outra coisa qualquer coisa mais, que me causou uma reacção alérgica...

O dia lá se foi passando com a fé de quem quer muito que, quando a jornada terminar, possa finalmente haver energia em casa...

O dia de sábado é só trabalhado de manhã! Supostamente até ao meio-dia, mas aqui.. o meio dia estende-se sempre até às 2 ou 3 da tarde... neste... estendeu-se até às 4!

Os outros resolveram ir até casa ver se, com sorte, a energia já tinha chegado, e eu ficava a trabalhar, caso esta não tivesse voltado, econtrariamo-nos no Belas (shopping) pois sem energia também não tinhamos almoço, que aquela hora já era quase jantar...

E quereis advinhar... havia energia em casa...??? Pois.. havia era o tanas!!!

Felizmente, eu tinha dado instrução para se começar a acabar a casa modelo e com isso, havia uma casa-de-banho que já tinha banheira, com água ligada à torneira, mas que ainda não tinha o ralo ligado à saída... e por outro lado, o chinês ladrilhador tinha naquele mesmo dia anterior, rematado as juntas do procelanato pré-cortado das paredes, e a WC ainda estava cheia de pó... (para os não arquitectos/engenheiros e afins, ou entendidos na matéria, pré-cortado num porcelanato implica que tenha mais cortes na peça do que as juntas que as suas arestas necessitam, logo mais juntas para preencher, logo.. mais lixo/pó para ser fazer ao rematar as juntas). Por azar também (que já era pouco....) como era sábado, a mulher de limpeza não tinha vindo trabalhar...

Bom, o que interessa é que havia a possibilidade, de com algum engenho e arte, fazer-se a ligação, limpar-se o pó deixado pelo remate das juntas, e finalmente tomar-se um banho... de água fria! Bem, atendendo ao calor que se faz sentir não era mau de todo...

Como não havia energia em casa, e a fé que voltasse, aliada à sombra da segunda-feira seguinte que seria feriado, o fantasma de podermos ficar sem energia até à proxima 3ª... começava a ser bem real!

Voltamos ao sítio onde a energia não falha tantas vezes, o Belas, e resolvemos ir ver o filme que gostava de ter visto no dia anterior... e não é que vimos mesmo! E o filme até foi bem bom... e pela primeira vez neste 1º trimestre, e apesar do filme ter durado quase 2h eu, por cerca de 1hora, consegui-me esquecer que estava em África, em Luanda, que não tinha energia em casa, e até podia ter dito que estava num qualquer cinema de Lisboa, não fosse quando o filme acabou, ao acenderem as luzes, eu perceber que afinal o cinema não estava meio cheio, mas sim repleto! Tava meio cheio até acenderem as luzes, pois havia parte do público que, com as luzes apagadas, ficam, digamos... camuflados, e como tal quase invisíveis e, como o filme não era para rir, só duas bolinhas que volta e meia piscavam, ficavam visiveis como que a marcar presença...

Terminado que estava o filme, voltamos à obra para apanhar os vários carros , e note-se já era bem de noite (21h), e resolvemos dividir-nos... eu ficava na obra, e eles iam a casa ver se já havia electricidade ou não... (onde é que eu já li isto...???)... pois caso não houvesse teriamos que ir a correr ao Shopping novamente para jantar, caso contrário ali perto não havia mais onde pudessemos comer...

Fiquei on escritório a aproveitar o pouco tempo de energia que ainda tinha, antes de o gerador se apagar, a mandar uns mails, e de olho no telemóvel, ao mesmo tempo que pedia a todos os Deuses que estudei na cadeira de Religião e Moral, e nas aulas de História (gregos, romanos, egípcios, todos, não interessava a origem), para que quando aquele telemóvel tocasse, viesse de lá a frase esperada... "Já temos Energia!!!!".... e então esperei...


Passado um pouco o telemóvel tocou... eu.. até estremecí!!! Peguei, atendi, e em vez do habitual "Tou?" ou "Alô"?... a minha pergunta não foi bem pergunta.. foi mais uma súplica... «Jorge!!!? Por favor... diga-me que me vai dar uma boa notícia....» .... e ele Deu!(s)!

....

Como dizem os meus amigos brasileiros... «Aquí, ó!.. Ficarrr sem energia doiss djias, não é brincadêira não!!!»

....

Lembro ainda que, numa casa, não é só o A/C, o fogão electrico, a bomba que puxa a água, a Tv e as lâmpadas que precisam de energia para funcionar... o frigorífico também, precisa... e por mais gelo que ele tivesse no congelador, 2 dias sem energia... mandam o conteúdo deste, directamente para o.. qual é o termo mesmo... ahhh.. directamente para o GALHEIRO!!!

Ahhh... como somos felizes, nós que habitamos o 1º mundo, e temos como certo que, de manhã quando acordamos, abrimos a torneira e tomamos o nosso belo banho! E se, por ventura, algum dia isso falhar,... ui... caem raios e coriscos sobre a companhia responsável, entrevistas são feitas, televisões convocadas, noticias são feitas, indignações são levantadas... aqui.. bom... aqui conformamo-nos e damo-nos por felizes se, nas repetidas vezes em que isso acontece, a energia não faltar mais de um dia... e rezar para que não falte muito... ou pelo menos de manhã!!!

quarta-feira, 6 de maio de 2009

T(r)ópico #42 - Informação FAQ - Angola/Luanda

Ultimamente tenho vindo a ser, frequentemente, abordado por pessoas interessadas em saber como é A Vida Nos Trópicos! Ou porque querem vir, ou porque foram convidadas para vir trabalhar para cá, ou porque encaram a possibilidade de tentar a sua sorte por paralelos mais a Sul e tropicais em oposição aos mais temperados do hemisfério Norte do globo, ou porque gostam ou, simplesmente, só por curiosidade. Seja qual o motivo, fazem-no na tentativa de perceber melhor as adversidades que aqui poderão encontrar, assim como as coisas boas que por aqui há!

Para ser sincero, compreendo-os muito bem, pois passei pelo mesmo, na altura da decisão... "Vou...ou fico?" Também eu procurei obter o máximo de informações e relatos pessoais que me ajudassem na tomada de decisão. Tentei por todos os meios (racionais e irracionais) tentar perceber qual a melhor opção (uma vez que tinha 3 hipóteses: Vir para Angola - Aventura; Ir para um Atelier prestigiante em Portugal (de um arquitecto de renome) - Carreira ; ou continuar no sítio onde estava - + Confortável). Fiz todas as análises SWAT, consultei todos amigos, família, ouvi todas as versões, e até tirei à sorte... à primeira e à melhor de 3!!!

Apesar de, para a tomada de decisão final, eu já poder contar com uma visita (de uma semana) que tinha feito meio ano antes para reconhecimento, se tivesse tido uma visão mais específica sobre os assuntos que mais me preocupavam, talvez a decisão tivesse sido mais fácil, e eu tivesse poupado algumas horas de paciencia a todos/as os/as meus amigos/as que tiveram a enorme paciência para ouvirem as minhas indecisões e incertezas! (Já agora, a todos um grande obrigado, pela vossa paciência e amizade!!!)

Posto isto, resolvi então "postar" um T(r)ópico que possa transmitir uma visão ampla de duas das principais preocupações que, as pessoas na sua grande maioria, normalmente questionam com maior frequência: Saúde e Segurança.

Falarei sobre estes dois, pois são também os mais comuns e transversais à maioria das pessoas, uma vez que as restantes questões dependem de outros factores, mais variáveis (Tempo de estadia; Trabalho; Empresa em que se vai trabalhar; Nacionalidade da Empresa; Local de Residência, Contrato, Condições, Vencimento, Etc, Etc.)

Faço-o de um prisma geral e da minha experiência pessoal.

Atenção, por pior que pareça o cenário, isto não é o fim do mundo. Não é mau! Mas também não se pode catalogar de bom, ou muito bom! Principalmente para quem tiver dificuldade em prescindir de alguns níveis de conforto (e alguns cuidados básicos), a que facilmente nos fomos habituando em Portugal.

O que nem é mau de todo, pois aprendemos a valorizar simples aspectos que no nosso quotidiano deixamos passar ao lado por... serem dados adquiridos, e não imaginamos a importância que pequenos detalhes têm no nosso dia-a-dia...

Não posso dizer que isto não é bom, mas também não é mau, ou melhor, não é assim tão mau, desde que uma pessoa se saiba enquadrar e relativizar as coisas à sua volta, pois se o fizer, irá perceber que até se consegue sentir bem aqui, mas é bom que venha preparada para o pior, mesmo!

Um coisa que irá que ter bem presente e consciente, é que em termos de saúde, vai adoecer várias vezes, e em termos de segurança, vai correr sérios riscos, quer de integridade física, por contacto pessoal, quer em termos de viação. Se tiver preparado/a para isto, já não lhe vai custar tanto.

Para facilitar a percepção, passarei a utilizar a 2ª pessoa do singular, de forma a ficar mais "pessoal" e directo.

Saúde:
De facto um dos maiores aspectos a ter em conta numa vinda para aqui, é a Saúde! Os hospitais aqui não têm as melhores condições (já ouvi relatos de sangue espalhado pelo chão a fora na sala de partos, por ex.o) e a saúde privada, que sempre é um pouco melhor, é imensamente cara! Eu que o diga...

A saúde é cara, não têm todos os equipamentos e conhecimentos, e o atendimento é leeeeeeeentooooo... mas lento...!!!
No entanto nem tudo é mau. No que toca a doenças tropicais, estão muito bem preparados e habituados. Melhor apanhar malária e curá-la aqui, do que ir com ela para Portugal ainda por diagnosticar.

Apanhares malária não é uma hipótese, é uma garantia! É quase certo! Eu já apanhei! Mas se detectares logo os sintomas, e atacares com o tratamento de choque, consegues curar. Eu fiquei uma semana afectado. O importante é (re)conhecer os sintomas, e ataca-la logo logo, sem demoras. Pensamentos do género: "Vou esperar até ao fim de semana a ver se isto passa" ou, "isto deve ser uma gripe, ou cansaço, tomo um comprimido e isto passa", devem ser altamente descartados!!! (Mais à frente, dedicarei um T(r)ópico a esta maleita, e aos seus sintomas e reacções)

Diarreias, e alteração do teu bio-ritmo também são garantias! Estas mais ainda. Eu quando cheguei, logo a seguir, apanhei um desarranjo intestinal de ficar de cama, com febres acima dos 39º.

Tens que ter muito cuidado com a alimentação, não deves comer saladas, legumes não fervidos, ovo, fiambre e afins, tudo o que não seja cozinhado e fervido, fora de casa, e em casa comer comida que te dê as vitaminas e proteínas necessárias e beberes sempre muita água, para não desidratares. (de preferência muita água tónica - o quinino presente nela ajuda na profilaxia da Malária)

E depois há os insectos e os animais venenosos (cobras, aranhas), as minas e a mosca Tse-Tse. E não convém ignorar o recente surto de raiva que assolou Luanda.

Bom, se ficares só pela cidade, só tens que te preocupar com os mosquitos e as aranhas. As cobras venenosas, as minas e as moscas tse-tse, só no interior.

Eu já tive de andar em campo minado, e no meio da vegetação onde habita a mamba preta! Uma cobra altamente venenosa... os portugueses colonos, baptizaram-na de "minuto-minuto", és picado num minuto, vais-te no minuto a seguir.

As moscas tse-tse também lá havia... eu não vi nenhuma mas vi as armadilhas que os tropas (que tomavam conta da barragem) armavam para as apanharem.

Mas se ficares pela cidade, as tuas preocupações devem estar mais com as águas paradas, e com as águas da chuva quando chove, que inundam tudo, e se misturam com as águas fétidas dos esgotos a céu aberto, e claro, preocupares-te também com os mosquitos e afins. Além da malária que as picadas dos mosquitos te podem fazer, há ainda alguns que quando te picam, além de pareces um painel de botões (vermelhos e inchados) de um elevador, onde os botões, grandes e salientes, ficam alí.. há espera de ser "apertados", há ainda uns (não sei o quê) que se te picarem deixam-te ficar uma cena qualquer estranha a crescer dentro de ti, até infectar, e rebentar, e depois teres que "manualmente" o puxares cá para fora... não é um cenário bonito de se ver... mas este com sorte, podes nunca ter de ver (em ti, pelo menos), mas lá está... é tudo uma questão de hipóteses!


Segurança:
Não te vou dizer que é seguro aqui, mas também não é muito inseguro. Depende da tua rotina e, dos riscos que estiveres disposto a correr, para saboreares um pouco desta Africa, e no fundo atenuares um pouco o impacto que é a mudança de vida.
Dos riscos que correres para tentares viver um pouco, de modo a compensares o ânimo que o excesso de trabalho te leva um pouco para baixo. Sim, aqui quem trabalha ,verdadeiramente, são os expatriados. E muito!

Em questão de segurança é tudo uma questão de hipóteses!!!

Tens mais hipóteses de ser assaltado se fores p'ali;
Tens mais hipóteses de te acontecer alguma coisa se fores sair à noite, ou se não deres os kwanzas ao arrumador, ou a gasosa ao indivíduo que te vai pedir o céu e a terra;
Tens mais hipóteses de te acontecer algo se não andares no bolso com um mínimo de 100USD (para resolver algum problema), ou se deixares acabar o saldo do telemóvel, ou se tiveres o depósito do carro abaixo de metade do depósito, etc, etc,...

Aqui o truque da segurança passa por, primeiro, uma questão de sorte! Corri sério risco de vida quando cá estive em Agosto 08 e foi só uma semana, do que nos 3 meses que aqui estou.

Os grandes riscos de vida que incorri neste trimestre foram essencialmente por.. conduzir na estrada, e acredita que já me safei de algumas, daquelas de te deixarem o coração a saltar pelas goelas..., portanto, quanto menos conduzires, menos riscos corres.

Mas como dizia, acerca dos truques de segurança, e em resumo, primeiro sorte, depois gestão de risco/hipoteses, andar sempre com (bom) dinheiro no bolso (aqui resolve muitos problemas), depósito: não deixar o depósito de combustível abaixo de meio, e nunca sair sem saldo no telemóvel, ou com pouco crédito.

E depois, MUITO importante!!! Muito importante mesmo!!!! Ter a noção, a consciência que a vida aqui... vale muito pouco!!! Vale muito pouco sob o ponto de vista social, e monetariamente falando também!!! Não te digo aqui quanto custa ($) pagar para tirar a vida a alguém, para não ficares assustado/escandalizado, mas aviso-te já que é muito... barato!!! Por isso, evitar riscos, e situações menos claras, é sempre um alerta a ter em conta!!!

Mas é como te digo, é tudo uma gestão de riscos/hipóteses.

Como disse, passei por uma situação de maior aperto quando cá estive numa semana, do que nestes 3 meses.

Podes viver até uma vida muito tranquila aqui, agora isso vai depender muito da tua rotina! De onde vais ficar a dormir, de onde vais ficar a trabalhar, e se tens que te deslocar muito e a vários pontos.

E aviso já que aqui não há hora de ponta! O trânsito está sempre entupido!

Mas aviso-te também que o primeiro choque, o primeiro impacto é logo no aeroporto! Isso é algo que precisas também de ter em conta!


Espero que a informação aqui exposta seja útil! E não te assustes, porque aqui também é bom, principalmente se quiseres dar um pontapé na tua vida (em vários sentidos), mas é bom que contes com o pior! Mais vale estar em alerta do que ser surpreendido!!!