sexta-feira, 24 de setembro de 2010

T(r)ópico #63 - Olhares... V

T(r)ópico #62 - Musica Mwangolé III

Homem casado, ou "Cota" como é mais vulgarmente conhecida, é mais uma música com a intervenção do badalado artista Yuri da cunha que, com o Dj Marcelo fazem desta música do Dj Jesus, mais um dos Hits deste paralelo tropical.

A musica retrata na perfeição, e uma vez mais, aspectos da sociedade local. Estão quase sempre ligadas às relações mais ou menos amorosas, conjugais ou extra-conjugais. Esta... é sobre os mais velhos que olham para as miúdas mais novas, e claro... as cobiçam...

Fica o som...


segunda-feira, 20 de setembro de 2010

T(r)ópico #61 - Olhares... IV

T(r)ópico #60 - Musica Mwangolé II

Kuma Kwa Kié do músico Yuri da Cunha (um dos mais badalados artistas destes trópicos) é, sem dúvida, uma das minhas musicas favoritas.

É um semba de uma energia tal, que chega a ser inebriante!!!

O Artista que a criou, criou também um estilo de a dançar muito particular, com um movimento das pernas meias flectidas que, circulando, levantando-se e brincando com os "n" possíveis movimentos que a rótula dos joelhos nos permite fazer com a parte inferior das pernas, que a tornou célebre.

O seu filho, já o imita e faz algumas danças com ele em concertos. É fascinante de ver e ouvir! E ao vivo... tem um impacto ainda maior no público.

A dança tem claras origens nas danças tribais, em que os interpretes parecem possuídos por espíritos. Esta é talvez a evolução de um tipo de dança aqui muito difundido também, chamado de "Melindro". Nessa sim, é ainda mais clara a origem tribal da dança.

"Kuma Kwa Kié" (cuma quá quié), quer dizer em Kimbundo: "Despertar ao cantar do Galo" Pode também ser interpretado como "Acordar para novas conquistas," que é como quem diz, ir à luta.

Fica o som... e a dança!


T(r)ópico #59 - Carta de um Trabalhador

20.09.2010

Hoje, um dos meus trabalhadores aqui, o Tchivota, mais conhecido por "Pastor", chegou junto a mim com um papel quadriculado dobrado em várias partes, formando um pedaço papel dobrado com cerca de 6x3cm.

Esboçou algumas palavras e entregou-me esse pedaço de papel. Como quase sempre, não percebi nada do que ele queria dizer. O português dele é muito pobre, e mistura as palavras que conhece com outras palavras do dialecto local, "Kimbundo", o que resulta numa mistura quase indecifrável.

A juntar a isto, há ainda o facto de que, quando fala, não abre muito a boca e, motivado por uma humildade característica que se reflecte muitas vezes submissa, a vocalização das palavras é muito baixa, e com os decibéis debitados pelos ruídos normais que se fazem sentir num local de obra, é que não percebi mesmo.

Como sei que é analfabeto, fiquei na dúvida se queria que eu lhe lesse o conteúdo, se me queria simplesmente entregar só o papel para meu conhecimento. Pelo sim e pelo não, parti do princípio que fossem as 2 coisas, e que queria que eu lesse o papel. E foi o que eu fiz... li-o em voz alta.

Bom, tenho que dizer que já há muito tempo que não patinava tanto para ler uma dúzia de linhas manuscritas!

Além do português ser horrível e a letra não ajudar, não percebi bem o conteúdo da dita carta, se bem que percebi o objectivo.

O pai, Sr. Tchivota, quer que o filho volte à província para fazer a Cédula Pessoal dele que não possui. Devido ao português dele, não percebi bem se queria que o filho se despedisse, ou pedisse licença para o efeito.

Perguntei ao "Pastor" (Tchivota filho), se ele queria ir à província. Respondeu-me com a palavra que lhe ouço mais vezes sair da boca: "Sim". Não convicto ainda com o esclarecimento do enigma, Perguntei-lhe se se queria despedir ou pedir Licença, ao que me respondeu... "Sim"!

...Sim!??? Mas sim o quê!? Voltei então a perguntar que só queria licença para ir à província, ao que me respondeu... "Sim!" Ok, menos mal... depois voltei a perguntar, se voltava ao trabalho. Resposta: "Sim!".

Ainda meio na dúvida, e para que não lhe desse autorização sem ter a certeza exacta do que ele queria, informei-o de que iria analisar o assunto e depois lhe dizia alguma coisa, ao que ele me respondeu... (vê lá se adivinhas...) pois, respondeu: "Sim!"

Para que se tenha uma ideia do que falo, deixo aqui a carta digitalizada:

(clicar na imagem para aumentar)

Uma delícia!!! uma verdadeira pérola! Eu volta e meia apanhava uns mails destes na minha caixa de correio electrónica, que isto já tinha acontecido a alguém. Alguns eram tão raros que pareciam mentira.. bom.. hoje foi o dia de me acontecer a mim!

Ofereço um caramelo a quem conseguir ler de enfiada esta carta, e a quem me conseguir decifrar na íntegra o conteúdo dela.

T(r)ópico #58 - Musica Mwangolé I

Inauguro aqui, inspirado pelo T(r)ópico #44, mais um capítulo dedicado aos Trópicos. Este é dedicado aos ritmos tropicais, Kizombas, Sembas, Tarraxinhas, Melindros e até Kuduros!"Hits" destas terras que fazem mexer o povo.

A musica aqui tem um efeito como nunca presenciei em nenhum outro país que tenha visitado. Todas as pessoas danças, todos lhe sentem a sua energia! E, quando por algum motivo, um mwangolé fica parado à beira da estrada ou noutro sítio qualquer, de imediato começa a dançar, a trautear uma musica qualquer que lhe vem de dentro... confesso, é algo que chega a ser tocante, pela simplicidade e alegria contagiante com que sentem e vivem estes ritmos... e sempre, mas sempre com um sorriso nos lábios!

Este 1º, é um Semba do Rei Helder ft Yuri da Cunha, intitulado "Essa quer me matar".

É uma música muito ritmada e que sabe muito bem dançar! Isto, para quem sabe, claro!

T(r)ópico #57 - A mudança das Estações, ou a resistência Angolana!?

O Verão e o Cacimbo, na forma do maior Imbondeiro...

Imbondeiro no Verão

Este é provavelmente o maior Imbondeiro que alguma vez vi na vida! Fica localizado em Calumbo, e neste blog já lhe fiz uma outra referência, e esta não será certamente a última.

É uma árvore impressionante! Tem um porte brutal, e a sua escala não parece humana. Para uma melhor percepção basta reparar no tamanho das pessoas sentadas no muro sob o imbondeiro... (clicar na imagem para melhor visualização)

Não encontrei melhor exemplo para poder explicar a diferença das estações aqui.

As estações aqui resumem-se a duas! A Estação das Chuvas (Verão), e a Estação Seca - mais conhecido por: "Cacimbo" (Inverno).

Na estação do Verão, que decorre entre Setembro a Abril (8 meses), atingindo o seu pico em Dezembro, as temperaturas são altas, variam entre cerca de 30º e 45º (Luanda) o clima é húmido, abafado, com muito muito calor, desde as primeiras horas da manhã até à noite, e por esta a dentro.

É o período do ano, onde volta e meia caem umas chuvadas tropicais (ver T(r)ópico #23) que deixam tudo inundado e provocam, junto ao mar, as famosas Kalembas (Marés Vivas). Neste período a chuva faz rejuvenescer tudo que é da Natureza, os campos ficam verdes, os animais têm maior vivacidade, e claro.. os Imbondeiros ficam cheios de folhas, frondosos, e produzem o seu fruto, a múcua (ver T(r)ópico #30), que também tem um aspecto verde.

Viajar ou passear pelas imensas paisagens do sertão angolano repleto de Imbondeiros verdes, é uma paisagem fantástica que nunca mais se esquece...


Na estação do Cacimbo (Inverno), que decorre entre Maio a Agosto (4 meses) atingindo o seu pico em Julho, as temperaturas são mais baixas, variam entre cerca de 18º e 28º (Luanda), o clima é seco, e desde manhã até à noite, uma espécie de neblina cinzenta densa cobre o céu, e nos dias de menos calor (há quem diga de mais frio, mas para mim 23º de temperatura média neste tempo não é frio..), chega a cair uma espécie de orvalhada ténue. É esta névoa intensa e permanente a que chamam cacimbo, e que dá o nome à estação.


Imbondeiro no Cacimbo

É um período caracterizado por uma ausência de chuvas, o que faz com que tudo que é verde seque, as árvores deixam cair as folhas, e as múcuas dos imbondeiros, secam e caem. Estas são prontamente apanhadas pelos locais para fazer o sumo de múcua. Outras utilidades são dadas também ao interior deste fruto, que é vendido como "puff" natural nas lojas de produtos naturais, óptimo para a esfoliação da pele.

As paisagens do sertão destes trópicos mudam drasticamente, e o verde dá lugar a uma paisagem seca, com os imbondeiros alinhados como fantasmas de braços erguidos (ver T(r)ópico #50). A paisagem chega a ser tão desoladora, quando assustadora...

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Não deixa de ser curioso, que na imagem do Imbondeiro (o tal maior) existam, aproximadamente no mesmo sítio das duas imagens, do Verão e na do Cacimbo, umas pessoas sentadas... Claro que é óptimo para se perceber a escala desta árvore descomunal, mas... será que ninguém lhes diz que já podem ir para casa!?? Não é preciso ficarem lá de novo à espera da próxima estação...

sábado, 18 de setembro de 2010

T(r)ópico #56 - Olhares... III

01.09.2010

T(r)ópico #55 - As serpentes urbanas Angolanas!

Realmente, e para quem duvidava, as serpentes urbanas angolanas existem mesmo! São enormes, densas, arrastam-se vagarosamente e tendem a agrupar-se nos entroncamentos e cruzamentos!

Falo das serpentes de carros que, um atrás do outro, fila ao lado de fila, entopem todas as artérias da cidade, espalhando o seu veneno tóxico por todo o lado, deixando um rasto de névoa escura pelos céus de Luanda.

Tal como com as serpentes selvagens (as verdadeiras), aqui todas as pessoas as evitam, fogem delas, têm medo... de ficar horas as fio a esvaírem-se em desespero, a lamentarem as horas, os acidentes, a confusão, os que se metem pela esquerda, os que se metem pela direita, os que, impacientes, buzinam atrás quando nada se mexe à frente... todos as evitam... mas elas estão por todo o lado... e no fim... todos são por elas "picados"...

...Ficam ali... moles, com o sol de chapa, a elevar ainda mais a já alta temperatura (safam-se os que têm AC), a olhar para o anteontem, a pensar no amanhã, a suspirar... quando mal se consegue respirar... pois esta serpente é daquelas que apertam mesmo bem...

Por vezes são escassos centímetros, milímetros até, que separam a batida... e quando batem mesmo... bom então aí há "Maka!" Saem dos carros, gritam, gesticulam, esperneiam, e agridem se for preciso... para no fim, ir cada um para seu lado... pois seguros aqui... é como o oásis no deserto! É uma miragem!

Cada um assume a sua despesa, e se o carro já não andar, não há "Maka!". Amarra-se uma corda ao candongueiro, e este vai ali, ligado por uma corda-umbilical, a puxar o outro! E se levar os 4 piscas ligados, vais cheio de sorte, pois a grande maioria, nem um tem, quanto mais 4!!!

Mas estas serpentes... são as serpentes do centro da cidade! Fora dele... há um outro tipo de serpente, ou melhor... de serpentear!!!

Bem vindo a... Luanda Sul!!!

....

A sul de Luanda, fica uma área que designam de Luanda Sul. É no fundo uma área nova da cidade, ligada à cidade "antiga" por uma artéria nevrálgica que atravessa toda a Samba e vai dar ao município de Benfica (Norte), a uma zona nova chamada de Talatona.

Talatona é uma área nova, maioritariamente residencial, composta por grandes e "luxuosos" condomínios (entenda-se luxuoso como um luxo relativo, atendendo aos padrões africanos), pontuada por algumas zonas de torres de escritórios de arquitectura do vidro (muito conveniente - ironicamente falando - para um país tropical, com temperaturas elevadíssimas e uma exposição solar intensa), e ainda o único centro comercial existente até ao momento, o Belas Shopping.

Esta zona foi e está a ser construída maioritariamente por uma empresa brasileira, a Odebrecht, que a nível das infraestruturas, as constrói exclusivamente.

Então o que é que obtemos!? Um país Africano, Angola, descoberto e colonizado por um país Europeu - Portugal, que edificou e criou a maioria das infraestruturas do país, é agora infra-estruturado por uma companhia de um país Sul-Americano, o Brasil, também ele uma ex-colónia do tal país europeu, e urbanizado (operações urbanísticas de condomínios) por... Chineses!!!

Bom, já se está a imaginar a bela salganhada que isto dá!!!

Resumindo, em Angola, numa área nova da cidade antiga, de estrutura e linhas portuguesas, temos chineses a construir numa infraestrutura brasileira!!!

E é essa mesma infraestrutura que, em Luanda Sul, se ganha uma nova dimensão da expressão serpentear!

Embora as sinuosas estradas da cidade original, penhadas de carros, o possam realmente parecer, eu entendo como serpentear os zig-zagues inúteis e sem sentido que aqui somos obrigados a fazer! Levando o carro a serpentear entre estradas e retornos, fazendo kilómetros atrás de kilómetros para virar e voltar ao mesmo sítio quando, uma simples rotunda, permitiria seguir em frente...

Está certo que aqui as rotundas, ao contrário das europeias (e a cidade de Viseu, nisto tem um doutoramento - Case Study), em vez de circularem e escoar o trânsito, têm o efeito oposto... atrofiam e congestionam... e porquê!? pergunta o meu leitor mais curioso...

É muito simpes! Porque como as regras de trânsito aqui não existem, ou pelo menos não são aplicadas, então entra toda a gente ao mesmo tempo para a rotunda, ignorando a regra da prioridade, e congestionando-a!

É claro que depois novas regras de prioridade são criadas, como por exemplo: tem prioridade o carro mais robusto, ou o carro mais "podre" (pois este está pouco preocupado se leva mais uma batida); ou por exemplo da regra da prioridade do nariz! Passo a explicar.. o carro que primeiro conseguir meter o nariz, tem prioridade sobre o outro... Afinal... até no Caos, na confusão do trânsito, se encontram regras...!!!

Mas voltando aos retornos...

A infraestrutura rodoviária criada pela tal empresa brasileira, implementou em Luanda Sul, o sistema do seu país natal, no qual se ressaltam os tais retornos.

O retorno é uma forma de, nas vias rápidas, se inverter a marcha para o sentido oposto. É um sistema económico muito utilizado em países menos desenvolvidos, pois permite efectuar inversão de marcha em vias rápidas sem recorrer a viadutos, pontes ou túneis. O problema aqui, reside basicamente em 3 aspectos:

1. O primeiro e mais gravoso, é que eles se localizam sempre do lado esquerdo das vias rápidas, e é na faixa mais à esquerda que se circula mais rápido. Então, para entrar num retorno o condutor tem que colocar o seu carro na faixa mais rápida e reduzir a sua velocidade para entrar no retorno. Quando sai, acontece exactamente o inverso, sai com uma velocidade reduzida (os que não se espetam contra os rails dos retornos), e entra num curto espaço directamente na faixa de maior velocidade.

Bom... não é preciso puxar muito pela imaginação para se perceber o que muitas vezes acontece...
Aliás, quem tiver um gosto especial e fascínio pelos acidentes automóveis mais estapafúrdios basta que pegue numa cadeira, se sente (à sombra de preferência) à beira da estrada num local seguro, e em meia tarde vê certamente meia dúzia de acidentes, ou um cento de "quase acidentes" de arrepiar a espinha de um gato!

2. O segundo aspecto, prende-se com os condutores que depois, ao saírem dos retornos, se querem deslocar para a faixa deles, ou seja, para a faixa da direita. E isto acontece muito, principalmente com os camiões.

Para ser mais claro, vamos fazer um pequeno exercício (que não é mais do que a descrição de um episódio típico, centenas de vezes presenciado): Um camião pesado, cheio de areia para uma das milhares de obras que aqui existem, pretende sair do retorno e passar para a faixa mais à direita. Sai do retorno a cerca de 20 ou 30km/h e entra numa faixa onde carros circulam a mais de 140km/h. Ao sair da faixa de aceleração, deve já ter atingido os 40/60km/h, e resolve então fazer uma diagonal pelas 2/3 faixas de rodagem até se posicionar na faixa mais à direita, a cerca de 80km/h, deixando uma nuvem densa de pó, (metade causada pela areia que transporta, a outra metade pela areia que se acomula sempre na berma das estradas, juntamente com os restos dos pneus rebentados). Bom não é preciso fazer um filme para se imaginar o que acontece... No meio deste processo, há carros a passar a 140km/h pela esquerda e pela direita, buzinadelas por todo o lado e quando um dos carros que ultrapassa o camião pela direita, após atravessar a núvem de pó, se depara com um outro camião em marcha lenta... "Pum!!!"

É nessa altura altura que o curioso que gosta de assistir aos acidentes, e que estava já a adormecer debaixo da sombra que encontrou, se levanta e diz: "xiiiiiiii.... mais um!".

3. O terceiro aspecto, e mais frustrante de todos, é o tempo que se perde para fazer um trajecto aparentemente rápido e curto, e que se transforma num longo e penoso caminho sem sentido.

É o desespero de ver a continuidade da estrada mesmo à nossa frente, do outro lado da via, mas que para lá chegar e dar continuidade ao trajecto, tem que se percorrer mais não sei quantas centenas, por vezes vários milhares de metros, até chegar a um retorno, e fazer tudo de novo até ao mesmo ponto onde nos encontrávamos, só para passar para o outro lado da estrada...

Já para não falar nas estradas de um só sentido, que nos obrigam a ziguezaguear como uma serpente a imitar uma barata tonta, e que nos forçam a fazer o triplo ou o quadruplo dos quilómetros, só para "ir daqui ali"...

Apresento um exemplo de um trajecto que faço com alguma regularidade:

A verde, o trajecto que seria lógico efectuar.
A vermelho, o que sou obrigado a fazer....

imagem 1

imagem 2

Em diagrama, para uma melhor percepção.
Trajecto verde (o lógico): 0,150km
Trajecto vermelho (o real): 2,750kmTrajecto verde (o lógico): 1,100km
Trajecto vermelho (o real): 3,750km

E tudo isto poderia ser resolvido com uma simples rotunda... e claro, civismo ao volante! Duas coisas bem complicadas de encontrar!!!

E eu até percebo porque não existem rotundas nestas novas vias, não é só a questão de que quando fazem uma rotunda de dimensões normais, esta rapidamente fica congestionada, é também porque dá imenso jeito à empresa que agora constrói e implementa esta estrutura viária vir, daqui a 4 ou 5 anos, partir tudo de novo para meter rotundas onde antes as poderia ter colocado. Lógico, não? É claro que a lógica a que aqui me refiro é a do Dólar. "Porquê fazer agora bem e ganhar por isso, quando posso fazer mal agora para depois voltar para remendar e ganhar o dobro!?"

Há ainda a questão dos semáforos nas passadeiras. Em Portugal, e outros países da Europa, os semáforos são colocados antes de modo a que o condutor imobilize a sua viatura antes de chegar junto da passadeira. Aqui não!

Aqui, tal como no Brasil (e não admira que assim seja, uma vez que a empresa que está a infra-estruturar esta área é brasileira), os semáforos aparecem depois da passadeira. Já se está mesmo a ver o que acontece! Os condutores quando param os carros, (e os que param, pois há os que ignoram simplesmente), param já em cima da passadeira. E quando até conseguem parar antes, param já para lá da barra pintada no pavimento. O que já não é mau, pois já garante alguma segurança, mas... mas, isso dá direito a multa. E claro, quem é que se fica a rir com isto? O belo do Polícia que monta o seu estaminé à sombra junto a uma passadeira, e fica ali a esfregar as mãos de contente a ver quem é o primeiro branco que para o carro para lá do limite da barra para de imediato o mandar parar, desenrolar todo o rol teatral que se faz, para no fim ganhar a sua "gasosa", e desejar: "bom fim de semana, senhor condutor".

Fico com a ideia que este sistema de sinalização luminosa junto das passadeiras deve ter sido negociado com a Administração Central, a quando da decisão da suma implementação, como uma forma de "compensar" o árduo trabalho dos agentes de segurança rodoviária, já que eles aqui... "trabalham muito"!

Não se engane o meu leitor, pois estes termos todos pomposos que aqui escrevo como: "agentes de segurança rodoviária", e outros, não são propriamente a imagem que tem no seu país dessas instituições e agentes... aqui, bom aqui tudo é, digamos... "contornável".

O problema é que, por mais que resistamos, acabamos sempre por ser "picados por estas serpentes", e damos por nós, a ziguezaguear atordoados nas filas sem fim, anestesiados pelo longo arrastar das horas, de suspiro atrás de suspiro, envenenados por este serpentear rodoviário...

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 7 de setembro de 2010

T(r)ópico #52 - Fim de tarde na praia deserta

2010.08.14



A tarde era a de Sábado, e por ventura foi um sábado até que não se trabalhou de manhã. Mas nestes dias do Cacimbo, o dia nasce cinzento e cinzento termina. É o inverno dos trópicos.

Bom, não se pode dizer bem que seja inverno, pois as temperaturas rondam a mínima de 20/23º e máxima de 25/27º. Não tem Sol. Pois, está bem, mas a temperatura compensa!

Normalmente, e a partir de Agosto, o Sol lá vai aparecendo, timidamente por entre um manto de nuvens, primeiro espesso, e depois já fino, quase rendado, lá para o fim do dia. Nunca aparece é em todo o seu esplendor, pois por mais fino que seja esse manto, ele cria sempre uma certa camada, quase misteriosa, que ao surgir o Sol cria uma espécie de difusão solar, criando efeitos dignos de registo, principalmente na altura mais fantástica do dia... no pôr-do-sol!!!

África tem muitos fascínios, de facto, mas este é especial. Confesso, já viajei por muitos sítios do mundo, já vi muitos "pôr" e "nascer" do Sol, mas aqui... aqui é algo de inigualável! Consegue-se ficar minutos a fim, a olhar para o Sol, sem ferir a vista. Ele é enorme, em tons alaranjados, e capta a nossa atenção longamente... digo e repito, é algo digno de se ver, e que certamente irá ficar retido nas minhas memórias de África.


Chegámos à tarde, deveriam ser por volta das 15h00, o que aqui já é bastante tarde, considerando que o sol se põe (mesmo) por volta das 18h00.

O Por do Sol aqui, como já referi é lindo de ser ver, fascinante mesmo, mas tem outra característica que ainda não revelei, a transição entre o dia e a noite, é repentina!!!

Aqui quase não existe o "lusco-fusco"! Ao aproximar-se da linha do horizonte, o Sol, começa a ganhar proporções gigantescas, em tons alaranjados, e desce vertiginosamente em direcção à linha do horizonte. Uma vez desaparecido totalmente (estamos a falar em poucos segundos), ultrapassada que esteja a linha do horizonte, a noite surge num ápice. Apenas cerca de 15/20 minutos separam o pôr-do-sol da noite cerrada.

Durante imenso tempo indaguei-me o porquê deste fenómeno, mas há poucos dias, em conversa com um amigo meu, engenheiro, ele veio com uma teoria que me convenceu, e que realmente tem toda a lógica. (Verdade seja dita, nisto os engenheiros são muito bons pois têm sempre uma solução lógica, mas mais que isto, prática para as coisas).

A teoria dele, e com toda a lógica, é que em Portugal, o pôr-do-sol demora mais tempo porque Portugal se encontra num paralelo muito mais afastado da linha do Equador, e como tal, o sol efectua uma trajectória muito mais de rasante relativamente à linha do horizonte e por isso demora mais tempo a atingi-la, ultrapassa-la e desaparecer a luminosidade, ao passo que aqui, muito mais próximo da linha do Equador, ou seja, no Trópico, a trajectória é muito mais vertical, quaser perpendicular, e por isso o Sol, "cai" mais vertiginosamente, assim como a noite surge muito mais depressa. Lógico, não? Realmente nem sei como é que não me surgiu isso, sendo que este Blog trata das aventuras nos trópicos!

Bom, voltando à praia... esta foi escolhida exactamente pelo que vou passar a descrever... por ser uma praia... deserta!!!

Bom, não é que nesta altura do ano as praias não estejam quase todas desertas, pois aqui as pessoas, acham que está... bom, até me custa escrever... acham que está... frio!!!!

Eu não sei bem como, até porque eu passei a tarde toda dentro de água, desde que cheguei, até quase ir embora, já perto das 18h15m.

Mas o facto é que as pessoas no Cacimbo até fogem da praia, como o diabo foge da cruz, pelo suposto "frio" que elas sentem junto ao mar (e fora dele). Ainda o ano passado dei com um vestido com uma camisola de lã de gola alta, ao meio da tarde, e eu de t-shirt, e cheio de calor.

Bom, mas voltemos à praia... hmmmm... a praia.... sim, estava óptima! Poderia tentar descrever a sua beleza, e como era fantástico estar numa praia assim, mas acho que aqui vou recorrer a aquela máxima que diz que, "uma imagem vale mais que mil palavras", e se uma vale mais que mil, então o que dizer de duas!?

Então aqui vai... esta era a praia. Descemos a picada de carrinha (um novo modelo indiano que está a implementar-se aqui "Mahindra") e conduzir a carrinha até à língua de areia, saí da carrinha e fiz o resto a pé. E bom... esta era a imagem da praia, à minha esquerda....

e à minha direita.....


É caso para dizer... palavras para quê?

Foi um fim de tarde muito bem passado, mais um daqueles que vai constar no meu álbum de memórias, do continente mãe... e estas.. valem bem o espaço que ocupam!

É nestes "recantos", e nestes momentos, que me encontro com a imagem romântica, aventureira e fascinante deste continente... é aqui que se sente mais um dos fascínios de África!

T(r)ópico #51 - Meio de Transporte no Interior

É simples é barato e.... parece ser divertido!

Em andamento:


Na Paragem à espera do... Condutor:

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

T(r)ópico #50 - Beleza Sinistra no Cacimbo

13.09.2009



O período é o do Cacimbo, o período das secas. Uma altura do ano que aqui designam de "Inverno", com temperaturas a rondar os 23/25º constantes. À noite cai uma ligeira humidade (o tal cacimbo) e o céu está sempre coberto por um manto espesso de nuvens cinzentas que ameaçam chover, mas nunca chove...


No Outono europeu, as folhas caem das árvores, e também aqui, a diferença é que aqui caem no tal.. Inverno! Bom também como só têm 2 estações só podia ser mesmo nessa!

As árvores mais características daqui, os Imbondeiros, que no verão ficam fantásticos, com as folhas e os frutos verdes (ver T(r)ópico #28 e #30), no Cacimbo, deixam cair a folha, os frutos (a múcua) e ficam despidos...


A imagem é sinistramente bela!!!

Vista pelo retrovisor do jipe, parecem um bando de seres estranhos, amontoados em nossa perseguição...



Há os que, numa luta inglória contra os elementos naturais ainda tentam suster alguma dignidade, aguentar os seus frutos, prolongar a queda da sua "roupagem"... mas esses são os que, se não pelos ramos meio despidos, ou pela sua forma, apresentam o ar mais sombrio, qual árvore-antropomórfica de tronco encorpado, pescoço esguio, cabelos despenteados, e braços abertos de dedos prontos, para te agarrar...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

T(r)ópico #49 - A via sacra domingueira...


Domingo em Luanda.

Normalmente as gentes desta terra aproveitam o fim de semana para fazer todo o tipo de festas, ir dar uns mergulhos à praia, e muito importante... ir ao Shopping!!! Ao Belas Shopping!!!


Aqui o Shopping (Centro Comercial em Português de Portugal - para os mais ortodoxos) é, ao contrário do que acontece em Portugal, um local onde vão as pessoas abastadas da cidade.

Único no país, apesar de já estarem em marcha outros dois, segundo consta, concentra naturalmente a atenção dos que, não tendo muito mais que fazer num período onde a praia não lhes é tão apetecível, rumam ao centro de deambulação nacional!

Sim, porque é exactamente o grande exercício que se faz por estas bandas!

Não se chega ao famoso cliché do fato de treino, só porque aqui faz calor e as pessoas andam sempre equipadas com roupa de marca desportiva, por isso, não se pode catalogar essa idumentária de "Fato de Treino", mas as marcas Puma, Reebok, Adidas, Nike, etc, etc, feitas as contas no fim do dia, devem ser as mais vistas entre os transeuntes...

As lojas não estão cheias, mas a praça da alimentação, está a romper pelas costuras, filas atrás de filas para os escassos restaurantes de "pega no tabuleiro, paga uma fortuna pelo kilo e procura uma mesa e é se queres"!!! As mesas... lotadas... e os cafés do exterior à pinha!

O supermercado.. bom, é bom nem falar pois, nem o Metro de Lisboa em hora de ponta consegue competir com tamanha multidão...

O Cinema... é como o Shopping, o único no País!!! E aos domingos, concentra a maior das atenções, pois já não só são os graúdos que aproveitam a matine por ser mais barato, (no outro dia paguei por este horário o equivalente a 17€ para ir ver o "Altamente" em 3D quando em Portugal pagaria 5.50€, 7€ no máximo!), pois esse é o horário da pequenada!!! Que com o seu e volume tom de voz típico, transformam aquele corredor/gruta do cinema, num verdadeiro parque de diversões de elevada reverberação acústica!!!

Isto é algo que aqui sempre me fez, e ainda faz, confusão! Como é que depois de ouvir tantas histórias pelas pessoas mais velhas que aqui viveram (alguns retornados), sobre os antigos cinemas, que eram um encanto, lindos, que com a liberdade que aqui se vivia passavam filmes que nem em Portugal se sonhava, das míticas matines ao ar-livre, e da variedade de opções de cinemas, assim como formas de passar os fins de tarde e noites dos fins de semana de 70's, como é que hoje só existe um cinema e é dentro de um "Shopping" Brasileiro???? Há coisas que não consigo mesmo compreender, mesmo que façam sentido depois de explicadas...

Não que tenha nada contra o Shopping e a marca brasileira, muito pelo contrário, até dou graças a Deus por aqui estarem e até perto de casa (atendendo às alternativas), o que me perplexa... são os outros que desapareceram...

E nesta ronda pelo Shopping, restam então os corredores para o já badalado vai-e-vem, de lá para cá e cá para lá, parando aqui e além, e micando aqui e micando ali, e não falo só das lojas, pois com o calor que se sente por aqui as roupas normalmente andam mais curtas, mas admire-se o que julga que aqui todos têm calor, pois cruzei-me no outro dia, num destes corredores, ia eu de Polo e Calções, com alguém que (menina), no sentido inverso, trajava umas calças de fazenda e uma camisola de gola alta... de lã!!.

Mas o ritual do Shoppoing não fica completo sem o Estacionamento Automóvel!
Aqui o parque automóvel do Centro Comercial, é uma coisa digna de se ver!!! Confesso...!!!

Não que não se encontre imensamente à pinha num domingo (e nos outros dias também, mas neste mais), e onde se pode passar minutos valentes rodando as baias de estacionamento procurando um raro lugar onde: (como alguém me disse um dia) "Estacioniar el Pió-Pió" (no seu belo portuganhol já de elevado grau... de fermentação), mas digno de se ver porque os carros, jipes, e até motos que aqui estacionam... são viaturas... TOPO DE GAMA!!! Sim, eu disse, Topo de Gama mesmo!!! E aqui sim diferem em muito de um Centro Comercial em Portugal, pois lá, o mais certo é o parque estar cheio de Renault Clio's, Fiat Punto's Opel Corsa's Peugeot 106, etc etc... mas aqui....!!!! Naaaaaaa.. aqui são Jipes BMW Z6, são Land Rover e Range Rover de última geração, Lexus, etc etc... e, só para se ter a noção, dei por mim no outro dia a contemplar no parque de estacionamento um... BENTLEY!!! Sim, um Bentley à porta de um C.C.... é que... fico sem mais palavras...

Exposto isto, e por ausência (prolongada) de àgua e electricidade em casa, o sítio mais próximo onde se pode comer uma refeição decente, e confiável, é mesmo no Centro Comercial, e à falta de melhor, lá fui eu... segurar no andor, e fazer parte desta procissão domingueira, rumo ao Shopping...

sábado, 29 de agosto de 2009

T(r)ópico #48 - Diário de uma estrada angolana... (percurso casa-trabalho-casa) V - The Return!!!

Não seria um regresso aos Trópicos se o meu 2º T(r)ópico da 2ª temporada não se referisse aquilo que considero a "Divina Comédia sobre Rodas" ou.. será que devo adoptar o nome de "Perigo Eminente!!!"?

É realmente uma dúvida que me assiste, pois não sei se deva rir com as manobras perigosas, os sempre presentes e intermináveis acidentes e peripécias com que nos presenteiam, a nós visitantes desta terra, ou se deva agradecer aos céus por ainda não me ter acontecido nenhum acidente, atropelado alguém, ou ter tido algum azar/chatice... Na dúvida... tenho feito as duas coisas!

Apesar de já calejado por alguns meses de condução nestas estradas, não deixo de me continuar a surpreender e admirar com as peripécias, as manobras incrivelmente "out of rule", a... anarquia das estradas!!!

E ai de quem aqui ouse protestar, mandar vir, buzinar ou praguejar!!! O melhor é esquecer, é deixa-los passar, é deixa-los infringir... seguir em frente, e acima de tudo estar super atento!!! O melhor truque é estar sempre de pé a trás, ou melhor, pé no travão (encostado), e tentar prever ,atempadamente, o que cada um dos veículos que seguem num raio de 50m (num e noutro sentido) pretendem fazer, ser um leitor de mentes de condutores angolanos!!!

Nunca a expressão: "Com um olho no burro e outro no cigano", fez tanto sentido para mim!!!

Como contar todas as peripécias que já assisti se tornava uma tarefa quase impossível e super fastidiosa, vou só partilhar estas que poderia catalogar de... "Os Camionistas!!!"


Ora, nem mais, vamos falar de camiões!!! E claro os seus... (ehhh.. bolas, não me vem um adjectivo melhor para os caracterizar... se não "broncos") condutores! (isto claro, se quiser ser politicamente correcto).

Bom, falemos então de um camião, ou melhor de um camionista que conduzia um camião, daqueles bem grandinhos, e que tem que virar num retorno! (mais à frente elaborarei um T(r)ópico dedicado a este tema, dos retornos)

Então este nosso amigo, que conduz um camião longo, e transportava 2 contentores de 20T. Tem de virar para o lado de Talatona e, portanto, virar no retorno... e não é que este nosso amigo não fez a coisa por menos e resolveu fazer jus à palavra e, literalmente... virou o camião!!!

E perguntas tu... mas como é que ele vira um camião carregado com 2 contentores de 20 Toneladas cada, com os contentores carregadinhos?

Pois é, meu amigo, mas a resposta é simples!!! Estás em Angola e aqui tudo pode acontecer!!!

Mas vamos lá à explicação lógica...

Então o nosso amigo, sabendo que conduz um camião longo, ficou de repente muito preguiçoso, e fazer a curva por fora, de forma a arranjar espaço para manobrar, dava muito trabalho, ou deve ter parecido, na altura, uma tarefa homérica, e ele resolveu seguir pelo retorno como se de um ligeiro se tratasse, a fazer a curva por dentro!

Bom, se não é novidade para mim que os passeios/lancis aqui são "à brasileira", feitos em betão armado, e com uma altura sempre superior a 50cm, então para ele, que muitas vezes ficam parados sentados na berma à espera de uma "Bóleia", já deve ser o bê-à-bá, ou devia ser...

O camião, fazendo a curva por dentro, fica naturalmente, mais cedo ou mais tarde, com uma roda encostada ao passeio. E o que é que o nosso amigo faz... Lá deve ter pensado: "Bom, isto é um camião.. tem rodas grandes... deve ser capaz de subir", ignorando claro, o facto de conduzir um camião pesado, com 2 contentores cheios, e isto é, caso tenha pensado alguma coisa, o que eu até duvido...

A roda teimava em subir o passeio, mas parar o camião e manobra-lo por fora dava muito trabalho, então só havia uma solução.. continuar a insistir...

O resultado daí, qualquer um adivinha, o camião lá conseguiu subir os cerca de 50/60cm de lancil, e claro, com a inclinação que daí advém, o peso dos contentores fez o inevitável... inclinou o camião, e daí a este resolver bater uma sesta deitadinho no asfalto, foi um instantinho! (que isto de subir passeios carregado dá muito trabalho!!!)


Incrivelmente, o atrelado e os contentores tombaram, mas o camião não! Era um daqueles que só tem a cabine e o espaço atrás para atrelar.

(foto tirada de manhã, por volta das 7h45m)

Bom, o caos que aquele estranho Incidente causou já todos imaginam...

E claro, lá foi o pobre do dono do material , ter que gastar uma fortuna em alugar um camião-grua aos chineses (que custam uma verdadeira fortuna por hora), para levantar os contentores, recuperar a carga e aliviar o trânsito...

(foto tirada meio dia depois, à hora de almoço)

Não quero imaginar o que é que passava pela cabeça pelo dono da carga, naquela hora, mas aposto que o tipo (o angolano que o conduzia) estava menos preocupado do que eu...


Outra história de um camionista aconteceu um ou dois dias depois do acima relatado. Um Camião carregado com grades de cerveja Cristal, uma vez mais, quis ver se o nome era só da cerveja, ou se o nome vinha das garrafas, e estas eram de... cristal...???

Então o que é que este nosso amigo resolve fazer?

Logo na primeira curva apertada (em cotovelo) que existe no fim de uma longa via rápida, resolveu achar que era o Fittipaldi, ou quem sabe, inspirado pelo sei recente acidente, o grande Filipe Massa.

Se resolveu achar que era um deles, ou realmente não sabe que tem que abrandar numa curva daquelas é algo que eu nunca vou saber. Agora aquilo que eu sei é que... um camião carregado com resmas de grades de cerveja, portanto um líquido (que se movimenta muito bem quando há inclinações), em cima de frágeis estruturas empilhadas, as grades umas sobre as outras, tombam muito facilmente numa curva daquelas a grande velocidade...!!! Mas vá, eu até lhe dou o desconto, não sou engenheiro mas tenho um curso que lida com engenharias, por isso, talvez, mas só talvez, seja natural que eu sabia isso, e ele... não!


Dois dias depois, exactamente na mesma curva um outro camião virou, (não me perguntem como, mas é fácil de adivinhar) e, uma vez mais, com 2 contentores de 20T, que ficaram espalhados pela estrada e passeios, tendo inclusivamente destruído um passeio (novinho em folha) que não deve ter mais do que 2/3 meses, e aqui... os passeios são feitos em... Betão Armado !!! (atenção que não estou a falar de cimento, mas betão armado!!!)

Os contentores também não ficaram muito bem tratados, como é fácil de imaginar...


Depois podia falar de mais aquele camionista que bateu contra um jipe (coisa corriqueira por estas bandas) e entupiu, com o acidente, a já congestionada estrada que dá acesso a Benfica e que atravessa o rio, sim atravessa... sem ponte!!!

Mas isso implicava falar dos passeios e cruzamentos que se galgam da estrada com 2 faixas, que de repente, se transforma em 4 (sem contar com as que se começam a formar nos passeios laterais ou no meio do mato paralelo à estrada), ou de conduzir em sentido contrário, e isso daria muita tinta para escrever e este T(r)ópico já vai longo...


E exposto isto, continuo com a minha dúvida inicial... "Divina Comédia sobre Rodas" ou.. "Perigo Eminente!!!"???



sexta-feira, 21 de agosto de 2009

T(r)ópico #47 - Back @ The Tropics - Part II


Depois de uma longa e atribulada visita ao país natal, para tratar da renovação das burocracias, e relembrar de novo ao desgastado corpo e vista, de como é a civilização, eis que estou de novo de volta aos paralelos tropicais!!!

Dia 14 marcou o regresso, e este T(r)ópico vem hoje, dia 21, "celebrar" não só a minha primeira semana de volta aos Trópicos, assim como a data de hoje, pois faz exactamente hoje 1 ANO, que vim pela primeira vez a este Trópico!!! Faz hoje um ano que teve início aquele que seria o primeiro (e curto) período dos meus périplos pela terra dos Imbondeiros!!!

E que melhor forma de celebrar este meu regresso e este aniversário que... a falta de energia!!! E claro.. a consequente falta de água!!!

Ah pois... estava eu ontem todo catita, a deliciar-me com o belo jogo que o meu clube do coração estava a fazer, quando após o 1º de 4 golos com que cilindrou aquela aspirante equipa ucraniana, e quando nada o fazia prever, a energia simplesmente... foi-se!!!

O primeiro pensamento, confesso, foi muito inocente... "Caraças, logo agora... bom.. faltam 10m para o intervalo, vou ficar por aqui (às escuras), pode ser que a energia volte a tempo da segunda parte..." ... que inocente!!! Até parece que nem aqui estou à um ano!!! (bom na verdade, totalizando o tempo todo de permanência são só quase 4 meses, o que pode justificar de alguma forma a inocência do meu pensamento..)

A electricidade não só não veio para a segunda parte do jogo como, aliás, não veio durante a noite toda... e muito menos de manhã!!! E o meu leitor mais atento já sabe o que é que isto implica... Ora nem mais... se não há electricidade, também não há água, e não havendo água.. também não há banho!!! (ou pelo menos um que tenha nome disso, pois aquele processo de tomar banho a copo do reservatório, não pode lá muito bem ser chamado de banho...)

E apesar de aqui estarmos no Cacimbo (a estação com a temperatura mais amena, onde o sol está sempre encoberto por uma camada bem espessa de nuvens cinzentas e onde até certas noites até quase orvalha - cai o que eles designam de cacimbo), apesar de estarmos então nessa estação... se não há electricidade logicamente o AC não funciona, então... por mais amena que esteja a temperatura, a noite é sempre uma noite sofrida, pois o calor... ataca!!! (pelo menos para quem não é de cá, pois os locais dizem até ter.. frio!!!??, é comum ver pessoas com temperaturas a rondar os 25º, vestidas de casacos grossos apertados até ao pescoço, ou camisolas e pullovers!!!)

E se o calor ataca.. o que saberia mesmo bem seria, sem dúvida, acordar e tomar um belo de um banho refrescante... pois.. nada disso!!!

O meu presente de aniversário desta mãe África foi: "Ora toma lá uma manhã sem água, que é para não te habituares muito às mordomias!!!"

E com isto só apetece dizer... "I'm back to Africa!!!"

quarta-feira, 24 de junho de 2009

T(r)ópico #17 - Barra do Kwanza.. o Paraíso na Terra!!!!

22.02.2009


Tinha chegado a Luanda na sexta-feira, dia 20, e dois dias depois, já estava provar o sabor desta terra.. a sentir a natureza, a sua beleza natural, o seu gosto... a sua tranquilidade...

No dia anterior, paramos na berma da estrada para escolher o equipamento.. uns angolanos, a caminho de onde passaríamos no dia seguinte, vendiam junto à estrada, todo o equipamento de praia, meio sujo, empoeirado e, digo eu, usado. Mas aqui, é como se fosse tudo novo. Compramos uns toldos, umas mesas de plástico, cadeiras, cadeiras baloiço, espreguiçadeiras, e até uma mesa tipo de campismo "Camping Gas" para os miúdos se sentarem, e já agora, e porque não.. umas canas de pesca e uma bicicleta.

"Junta tudo isso aí, que amanhã o motorista passa por aqui e leva, o resto que vocês ainda têm de ir buscar. E não se esqueçam!!! Hã!? Toma lá mais 100 USD, para teres a certeza que não te vais esquecer, ya!?" disse, quem comanda, enquanto eu, ajudando como podia aqui e ali na escolha dos equipamentos, tentando que ele formasse o conjunto mais harmónico possível e mais cromaticamente equilibrado, e observava, impávido, o desenrolar das notas de 100 USD que ele trazia no bolso, e que uma atrás da outra, foram passando para as mãos dos "vendedores". Não contabilizei, mas na certa, aquela compra de "em cima do joelho", tinha rendido uma safra, assim por alto de mais de 1800 USD, (+-1325€), algo que em Portugal, facilmente se compraria por uns 600€ em qualquer supermercado, e ainda com os plásticos a garantir que seriamos nós a estrear o equipamento! Já para não falar, do leque de modelos e cores disponíveis! Aqui... compra-se o que se tem,quando tem, e custa os olhos da cara...

No domingo dia 22, arrancamos então daqui, passavam já das 10 e meia. A viagem, rumo ao sul é tranquila com a praia e a enorme ilha do Mussulo a acompanhar-nos todo o trajecto de 1 hora e pouco de viagem, sempre pela direita, até à Barra... onde o rio Kwanza se encontra com o mar.


O terreno onde vamos acabou de ser adquirido, e vamos reconhece-lo...
É uma faixa de terreno virgem, com uns 150m de largura e 300 de comprimento que, numa área plana e polvilhada por lindos conjuntos de palmeiras, se estende desde o interior e termina justamente em frente à foz, onde o rio se cruza com o mar, o oceano!


Junto ao areal da praia, uma vegetação rasteira prova ainda a virgindade do local, e do lado de lá do areal e da língua de rio há ainda um areal onde pescadores, levam o seu Land Rover original e pescam peixes variados e gigantes!


Chegamos passava pouco do meio dia. O sol é quente e, com o céu despido de nuvens, queima na pele. A sombra das palmeiras é providencial!

Os peões, já tinham montado o equipamento, que resolvi relocalizar para melhor dele tirar partido. O motorista, que tinha vindo mais cedo, tinha também passado pelo supermercado e comprado o nosso almoço.


Digo almoço, no fundo, para ser modesto. Em 4 ou 5 grandes arcas de conservação, tipo "Camping Gas", havia bebidas (cerveja sumos guaraná, águas e outras mais a perder a conta, mergulhadas em quilos de gelo. Estas ocupavam 2 arcas. As restantes tinham a (muita e variada) carne, e o peixe que era local, tinha acabado de ser comprado a um pescador lodo pela manhã.

Enquanto damos uma volta pela frente do terreno e vou molhar os pés na água tépida, as mulheres com as raparigas contratadas para o efeito, preparavam as brasas, a carne, o peixe, cortavam o pão e faziam as saladas, sem nunca se esquecerem de preparar muito bem o jindungo!


Junto à àgua, as crianças brincavam como podiam, e iam comprovando a suspeita de que a água estaria deliciosa. Sento-me na areia junto à água e fico a observar a tranquilidade... as àguas calmas, os peixes que, em pequenos saltos vinha-me dizer que ali também havida vida, e que pelo menos, naquelas águas próximas do derradeiro encontro com o oceano, estariam mais a seguro dos jacarés que, um pouco mais acima, nos juncos sobreiros nas margens preparam as suas mortais emboscadas. Do outro lado, a linha de areia vem acentuar a linha do horizonte...


Os tenis saltaram fora e tomaram lugar as havaianas, os calções pelos calções de banho, a areia escaldante e a água quente solicitavam um contacto mais próximo.



O alarme sou! Um peão veio trazer a mensagem... o almoço estava pronto! O cheiro a carne grelhada, e a peixe na brasa à medida que nos íamos aproximando da sombra das palmeiras aguçavam o apetite e na pequena elevação de areia, apoiada pelo equipamento recentemente adquirido, e um som de bossanova que vinha do Patrol, criava-se o ambiente perfeito para uma tarde de degustação e tranquilidade que ainda só agora começava...

O almoço começou com uma, duas, três,tantas estórias, uma após a outra, regadas pela cerveja que pontualmente se pescava da arca, onde mergulhadas no gelo já meio derretido, vinham acompanhar e alegrar um pouco mais aquela tarde de troca de experiências, de rumos, de objectivos, de sonhos e de ilusões, sempre acompanhados por um peixe grelhado que não parava de chegar à mesa, e que quando, guiado pelo metal do garfo, me chegava à boca, à lingua, parecia desfazer-se... o sabor era potenciado não só pelas brasas, que com calor iam tostando cada face daquele delicioso peixe, mas acima de tudo por todo aquele enquadramento natural fantástico, em que as horas pareciam arrastar-se vagarosamente, ao sabor da corrente do Kwanza que logo ali ao lado, tranquilamente se ia encontrar com o seu destino... com o Oceano... o oceano que liga os mesmos países que uma mesma lingua ainda une, um trio que outrora fora um Só, e que agora se prometem reencontrar em Angola, Brasil e Portugal, para um mesmo fim, no mesmo país...

Mas agora, são mesmo só 2 portugueses que, deliciosamente degustam todo aquele cenário natural, na companhia de uma simpática e acolhedora família angolana, os trabalhadores e motorista, as crianças, o som do rio, o som do mar, a leve brisa nas palmas, o sol por entre os dedos do pintor... aposto que, se Renoir, Monet ou Degas se tivessem podido encontrar com Gauguin, naquela tarde, naquele mesmo sítio naquele domingo, teríamos ficado representados ali.. entre a natureza e a tela, numa impressão impressionista de pós-impressionismo colorido, pelo verde e azul da água, os verdes amarelados das palmeiras, o amarelo da areia, o laranja do por do sol, o abraço do tom pálido dos portugueses, com o negro dos angolanos, o peixe tostado... a carne vermelha... o sal ainda no corpo, tudo isso e a cor do momento que espelhava a felicidade.. esse doce momento que volta e meia, a vida nos presenteia, e só um artista, um impressionista conseguiria tão bem captar para a posteridade, na táctil forma de captar com movimentos rápidos, em precisas pinceladas o brilho, o efeito das luzes... e onde as cores de áfrica se perpetuariam, intensas, como nas tardes vivas gravadas nos quadros de Paul Gauguin...

A tarde parecia não passar, e porque já sabia bem apanhar um ar fresco, então chamou-se o outro empregado que tinha ficado de contratar um barco... "Cumé..., já chamaste o barco?"

A refeição pediu a calma, e o tempo deu-lha... agora eram as águas que nos chamavam em suaves sussuros, tocando ao de leve com pequenas ondas tímidas, a areia quente da praia... deslocamo-nos até lá! O barco estava a chegar...

Ao chegarmos à linha de água, torneando por entre os juncos secos estendidos no areal, avistamos o barco que, de motor já desligado (parecia não querer interromper aquele momento de paz interior com o seu ruído característico), se aproximava embalado pela leve ondulação ,na berma. O barco não era grande, mas coubemos todos e, mais pequeno fosse, mais empolgante seria a viagem.


Arrancamos em direcção ao Sul, para logo entrarmos rio a dentro a Este. A paisagem inspira...


O rio é grande, largo, com vegetação de um lado e do outro, verde, viva, a tocar a água, a embrulhar-se nela, e a ocultar vidas... outras vidas, de outra natureza, umas mais pequenas e esguias como os os peixes e libélulas, outras maiores, que no silêncio da emboscada, procuram as suas presas para devorarem com as suas poderosas mandíbulas.













O passeio deve ter durado uns deliciosos 30 a 40 minutos... entramos pelo Kwanza a dentro, passamos a ponte, avistamos um afluente, viramos nos juncos, saboreamos a brisa, provámos a água, brincámos com o combustível que tinha acabado, contamos anedotas, bebemos a paisagem e voltámos à margem...

A tarde foi-se passando por entre os risos das crianças, a sombra dos chapéus (agora colocados à beira da água), e o suave esticão da corda de nylon que denuncia a mordida de um peixe no anzol, este mais esperto que nós pois levou o isco e deixou o anzol bailar ao sabor da corrente! Isto, claro, na única cana que montei, pois as restantes saíram da embalagem, mas quando dei conta já a linha se tinha envolvido em torno do carreto e os miúdos reclamavam que aquilo não estava a funcionar...

A tarde foi passando e com ela um degradê celeste, de tons azuis para os tons laranja...

Ao fim da tarde, a mesa, montou-se agora distante da sombra, pois a temperatura já permitia desfrutar aquela deliciosa paisagem, pintada agora em tons quentes, e o grelhador voltou de novo a funcionar, compondo aquele quadro com um cheiro a grelhados... desta vez, de carne!

A refeição fez-se uma vez mais, vagarosamente, por entre novas estórias e anedotas, imaginou-se o futuro do local, projectaram-se novos e vindouros momentos como este, e regou-se tudo com bebidas frescas, pois apesar de o dia estar a caminhar para a Hora de Ouro, o calor ainda se fazia sentir... e a brisa.. essa, tinha ido dar um mergulho, e deixou-nos a desfrutar a companhia do sol, que agora, descendo em direcção a outras latitudes, pintava o céu de tons deliciosamente quentes, e presenteava-nos com um espectáculo como que se nos convidasse para voltarmos... e voltarmos logo...


No meio da natureza, quando o sol se põe, resta ainda uma claridade ténue, que se vai desvanecendo com o passar dos minutos...

Novos sons surgem para substituir os diurnos, e a brisa volta de novo, para nos lembrar que está na hora de voltarmos... ...voltarmos à realidade e ao caos da capital Angolana!


O meu grande desafio para este local, vai ser, respondendo aos requisitos programáticos e exigentes do cliente, conseguir implantar uma pequena área privada em convivência com um, também pequeno resort, sem ferir a beleza e tranquilidade deste pequeno pedaço de paraíso, à beira rio/mar perdido...

(Foto aérea da Barra do Kwanza, tirada no jacto particular quando a sobrevoamos, de regresso do Lubango - 08.03.2009)

À vinda, o inevitável transito que, à medida que nos aproximamos de Luanda se vai adensando ao ponto de parar. Pessoas saem dos carros, encetam danças (kizomba, kuduro) cantam, e um par de miúdos brincam a queimar o tempo. O regresso demora mais cerca de 2 horas do que a ida... mas isso não é motivo para desânimo... não, pelo contrário.. num outro país, seria um desespero.. aqui... é somente mais um motivo para nos divertirmos, para o convívio, para explorar o nosso bom humor, e rirmo-nos com a forma perigosa e confusa da condução que por aqui se faz, ou do estado de um ou outro carro que passa por nós ou nós passamos por ele... como do Toyota Rav4 que ultrapassamos umas 2 ou 3 vezes, e que, incrivelmente se deslocava somente com 3 rodas, sendo a quarta só a jante com um pedaço de pneu ainda agarrado, e que viajava como se não fosse nada com ele... o importante era continuar a andar e chegar ao destino, desviando-se dos postes de electricidade quase tombados na via, e quando esta já não andasse, não havia problema.. ele descia para a vala, e contornava pela direita os carros que não eram tão espertos quanto ele, e ficavam ali, certinhos, na estrada de asfalto esburacado, quando se descessem um pouco, ultrapassavam mais uns quantos! Tudo isto, todo este quadro vem encher de cor o meu segundo dia, que já vinha cheio com a memória do pôr do sol dourado, naquele pedaço de paraíso à beira mar...